Em março de 2016, uma moradora de Voronej procurava no site «Pamiat Naroda» («Memória do Povo») qualquer vestígio do avô, convocado em 1941 e dado como desaparecido desde o inverno de 1942. Uma busca por sobrenome e ano de nascimento trouxe um relatório de combate do 1071.º Regimento de Fuzileiros, que não mencionava o avô pelo nome, mas uma linha do diário de operações da unidade: a sua subunidade fora cercada perto de Rjev, e a maioria dos homens foi registada como desaparecida simplesmente porque não restou ninguém para redigir um relatório de perdas — o próprio estado-maior do regimento estava preso no cerco. Alguns meses e um pedido de arquivo ao Arquivo Central do Ministério da Defesa depois, surgiu um cartão alemão capturado: o avô fora feito prisioneiro, enviado a um Stalag na Polónia ocupada, e morrera ali em 1943. A fórmula de setenta anos «desaparecido em combate» revelou-se não o fim da história, mas apenas uma lacuna no registo soviético que os documentos alemães vieram preencher.
O sistema de registo de perdas do Exército Vermelho formou-se já nas primeiras semanas da guerra, em condições extremamente desfavoráveis: no verão e outono de 1941, estados-maiores inteiros foram cercados juntamente com os seus arquivos, e os relatórios de perdas desse período ou nunca foram elaborados ou foram perdidos durante a retirada. É por isso que a «névoa dos desaparecidos» mais densa recai sobre 1941-1942, enquanto por volta de 1943-1944, quando a frente se estabilizou e o trabalho de estado-maior se tornou mais ordenado, os relatórios de perdas se tornaram consideravelmente mais completos e detalhados.
Todos estes documentos — relatórios de perdas, fichas de condecoração, diários de operações, livros de hospital, processos pessoais de oficiais — foram reunidos depois da guerra num único local: o Arquivo Central do Ministério da Defesa da URSS, fundado em 1936 e situado em Podolsk, na região de Moscovo. Hoje, o TsAMO continua a ser o maior arquivo militar do mundo em número de unidades conservadas, e os seus fundos constituem a base de todas as bases de dados online atuais.
O primeiro passo para a digitalização foi o projeto OBD Memorial, lançado pelo Ministério da Defesa em 2007. Baseou-se em relatórios de perdas, livros de hospital e, sobretudo, em cartões alemães capturados sobre prisioneiros de guerra soviéticos — a administração alemã mantinha registos de prisioneiros muito mais pormenorizados do que se poderia supor, e frequentemente registava o local e a data exatos da morte ali onde os documentos soviéticos se limitavam à fórmula «desaparecido em combate».
Em 2010 surgiu o Podvig Naroda («Feito do Povo»), uma base de dados de documentos de condecoração que permitiu encontrar não apenas o facto de uma medalha, mas o texto completo da proposta com a descrição de um combate concreto. Em 2015, por ocasião do 70.º aniversário da Vitória, as duas bases foram fundidas num único portal, o Pamiat Naroda, ao qual se acrescentaram mapas operacionais e diários de operações das unidades — permitindo não apenas conhecer uma data de morte, mas reconstituir dia a dia o percurso de combate de uma unidade.
Relatório de perdas
É o documento principal que registava uma ferida, uma morte ou um desaparecimento, elaborado pelo estado-maior da unidade. Indica a patente, o cargo, o ano de nascimento, a data e a causa da perda e, frequentemente, o endereço da família, ao qual devia ser enviado o aviso de óbito — para a investigação genealógica, é um dos poucos documentos de guerra em que o endereço civil de uma pessoa fica registado independentemente dos registos paroquiais de pré-guerra.
Ficha de condecoração
Além do facto da condecoração, a ficha quase sempre contém a descrição de um ato concreto: o que a pessoa fez exatamente, em que combate, em que data. Para a história familiar, é um dos documentos mais ricos — na prática, um pequeno esboço biográfico escrito por um contemporâneo do acontecimento.
Diário de operações
Mantido diariamente pelo estado-maior de um regimento ou de uma divisão, o diário descreve a situação de combate mesmo que o nome de um antepassado nunca apareça nele. Conhecendo o número da unidade e as datas de serviço, é possível reconstituir em que combates a unidade participou de facto — o que muitas vezes explica por que razão surgiu, num determinado período, uma declaração massiva de «desaparecido», como aconteceu com o regimento cercado perto de Rjev mencionado na história inicial.
Ficha capturada de prisioneiro de guerra
Se um antepassado foi feito prisioneiro, a administração do campo alemão abria-lhe uma ficha pessoal com fotografia, impressão digital, o número exato do Stalag ou Dulag e, na maioria dos casos, uma data de morte, se o prisioneiro não sobreviveu até à libertação. Estas fichas foram capturadas pelas tropas soviéticas no final da guerra, mantidas durante muito tempo em fundos fechados, e só foram desclassificadas e digitalizadas na década de 2000.
Desde o final da década de 1980, quase todas as regiões da URSS, e depois da Rússia, publicaram o seu próprio Livro da Memória em vários volumes — um registo impresso dos mortos e desaparecidos naturais da região, elaborado a partir dos arquivos locais das comissões de recrutamento e dos avisos de óbito. Estes livros existiam antes das bases de dados online e contêm frequentemente dados ausentes do OBD Memorial ou do Pamiat Naroda — a rua exata de residência anterior à guerra de um convocado, por exemplo. Muitos Livros da Memória regionais estão hoje disponíveis em PDF nos sites de arquivos regionais e bibliotecas de história local, e para um panorama completo vale a pena verificar precisamente a edição regional do local de residência anterior à guerra, e não apenas as bases federais.
A frequência de certos sobrenomes e nomes cria uma armadilha séria: uma busca por «Ivanov Ivan Ivanovich, nascido em 1920» no Pamiat Naroda facilmente devolve dezenas de homónimos. Para estreitar a busca, ajuda conhecer não apenas o sobrenome e o ano de nascimento, mas também, pelo menos aproximadamente, o local de convocação — geralmente indicado na caderneta militar ou num aviso de óbito conservado, se a família o tiver. Outra confusão frequente surge quando um convocado de 1939-1940 já havia servido no exército polaco ou báltico antes da incorporação desses territórios à URSS — nesse caso, a sua biografia militar começa formalmente mais cedo do que a da maioria dos convocados soviéticos, e parte da sua documentação pode não estar no TsAMO, mas nos arquivos desse exército de pré-guerra.
O registo do corpo de oficiais era feito separadamente do das tropas e sargentos, e conservou-se de forma muito mais completa. O processo pessoal de um oficial no TsAMO geralmente inclui uma autobiografia escrita por ele próprio ao entrar para o serviço, avaliações dos seus comandantes, dados sobre a sua formação anterior à guerra e filiação partidária, e uma lista completa das suas transferências entre unidades. Para as famílias que procuram um oficial, este fundo quase sempre oferece muito mais detalhes do que os relatórios de perdas das tropas — mas o pedido do processo pessoal de uma pessoa concreta deve ser enviado como carta separada ao TsAMO, uma vez que tais processos não fazem parte das bases de dados online abertas e só são entregues a pedido de familiares diretos.
O destino de um prisioneiro de guerra soviético não terminava com a libertação. Depois de 1944, todos os antigos prisioneiros que regressavam dos campos alemães passavam por um sistema de campos de verificação e filtração do NKVD, onde oficiais de segurança apuravam as circunstâncias da sua captura e o seu comportamento durante o cativeiro. Os documentos de filtração constituem um fundo aparte, que permaneceu fechado durante décadas e hoje só é parcialmente acessível aos investigadores; para muitas famílias, é a única fonte que explica por que razão um familiar que sobreviveu ao cativeiro não regressou imediatamente a casa, passando ainda vários meses num campo perto de Sverdlovsk ou Tula antes de finalmente chegar à sua aldeia natal.
Uma categoria aparte são os habitantes do Leningrado sitiado e dos territórios russos ocupados, cujo destino civil foi registado não por organismos militares, mas municipais e regionais. Assim, a compilação impressa «Blokada. 1941-1944. Leningrado. Livro da Memória» reúne dados sobre centenas de milhares de habitantes da cidade que morreram de fome e de bombardeamentos — um documento civil, não militar, que convém procurar separadamente das bases do TsAMO.
O Pamiat Naroda baseia-se principalmente em documentos das forças terrestres, o que cria um ponto cego para os familiares de marinheiros, aviadores e soldados do NKVD. O registo do pessoal da Marinha era feito separadamente do exército e encontra-se no Arquivo Naval Central de Gátchina — se um antepassado serviu no mar, é aí que se deve procurar primeiro, não apenas nas bases gerais do exército, embora parte dos fundos navais também tenha começado a aparecer online nos últimos anos. O pessoal de voo das forças aéreas era registado por esquadrilha e regimento, e o destino de uma tripulação abatida muitas vezes só se conhece décadas depois, graças ao trabalho de equipas de busca que localizam o local da queda e identificam, pelo número do motor, a que tripulação pertencia o avião. As tropas do NKVD e as unidades de guarda de fronteira foram durante muito tempo consideradas um organismo separado do Exército Vermelho, e parte da sua documentação encontra-se em arquivos do FSB, não no TsAMO — algo particularmente importante a ter em conta se um antepassado serviu, por exemplo, em unidades de guarda de fronteira durante as primeiras semanas da guerra na fronteira ocidental.
Paralelamente ao trabalho de arquivo, existe na Rússia um movimento de equipas voluntárias de busca que, sobretudo na primavera e no verão, recuperam nos antigos campos de batalha os restos mortais de soldados sem sepultura. A partir de 1941, os soldados recebiam uma cápsula de ebonite — o medalhão de identificação — com um formulário de papel no interior, onde deviam ser inscritos o sobrenome, o ano de nascimento e o endereço da família; é precisamente graças à nota conservada num desses medalhões que as equipas de busca por vezes conseguem identificar um soldado oitenta anos depois do combate. O problema é que, no outono de 1942, os medalhões foram oficialmente retirados como elemento obrigatório do equipamento — o comando considerou que dados pessoais precisos facilitavam ao inimigo, através da propaganda, o conhecimento da dimensão e composição das unidades —, e a partir dessa data o número de descobertas anónimas aumenta drasticamente. Se um familiar desapareceu precisamente na segunda metade da guerra, as hipóteses de identificação através de um medalhão são bastante menores, e os documentos de arquivo permanecem então a fonte principal, não as descobertas de campo.
Os nomes apurados pelas equipas de busca são transmitidos às comissões de recrutamento locais e publicados em bases de dados abertas dos movimentos de busca — estas bases não fazem parte diretamente do Pamiat Naroda, e para um panorama completo vale a pena consultá-las separadamente, especialmente se o local presumido da morte de um antepassado coincidir com uma zona onde se realizam escavações há anos: o saliente de Rjev, Miasnoi Bor perto de Novgorod, as imediações de Estalinegrado.
Por razões de segurança, o número de uma unidade ativa quase nunca era indicado na correspondência aberta: em seu lugar, as cartas da frente traziam um número de código da estação postal militar — um código de cinco dígitos do tipo «correio de campanha 12345». Este número não estava ligado de forma permanente a uma divisão concreta: era reatribuído nas reorganizações, e o mesmo número podia pertencer sucessivamente a várias unidades diferentes ao longo da guerra. Ainda assim, a partir da data da carta e do número de correio de campanha é muitas vezes possível estabelecer que unidade se escondia atrás desse código num determinado período — as tabelas de correspondência entre números de correio de campanha e unidades militares foram publicadas e estão disponíveis em fóruns especializados de genealogia e na literatura de referência sobre a história da guerra.
Se uma família conservou ao menos um envelope ou uma carta triangular da frente, esta pista por vezes revela-se mais precisa do que a tradição oral familiar: a data de envio e o número de correio de campanha permitem restringir a busca a uma divisão concreta e a um período determinado do seu percurso de combate — particularmente valioso se os documentos do TsAMO mencionarem um antepassado sem indicar o número da unidade.
O registo militar soviético em tempo de guerra não foi nem uniforme nem livre de erros: foi criado por estados-maiores muitas vezes sob fogo, e preenchido à mão por pessoas que não tinham tempo nem recursos para a precisão. Compreender este lado oculto dos documentos é o que transforma um formal «desaparecido em combate» na história concreta de uma pessoa concreta.
TsAMO — o Arquivo Central do Ministério da Defesa da Rússia em Podolsk, o principal fundo de documentos sobre os militares do Exército Vermelho.
OBD Memorial — uma base de dados eletrónica de relatórios de perdas e fichas alemãs capturadas de prisioneiros de guerra, lançada em 2007.
Podvig Naroda — uma base de dados de documentos de condecoração do Exército Vermelho, lançada em 2010.
Pamiat Naroda — o portal fundido em 2015, reunindo relatórios de perdas, documentos de condecoração, diários de operações e mapas operacionais.
Relatório de perdas — o documento principal do estado-maior de uma unidade que registava uma ferida, morte ou desaparecimento de um militar.
Diário de operações — o relatório diário do estado-maior de um regimento ou de uma divisão sobre o andamento das operações de combate da sua unidade.
Livro da Memória — um registo impresso regional dos mortos e desaparecidos naturais de uma região, publicado desde o final da década de 1980.
Stalag / Dulag — tipos de campos alemães para prisioneiros de guerra; o Dulag servia como ponto de trânsito, o Stalag como campo de detenção permanente.
Campo de filtração — um campo do NKVD pelo qual passavam os antigos prisioneiros de guerra soviéticos depois da libertação, para verificar as circunstâncias da sua captura.
Processo pessoal de oficial — um fundo de arquivo separado do TsAMO, contendo a autobiografia, as avaliações e a lista de transferências de um oficial.
TsVMA — o Arquivo Naval Central de Gátchina, o principal fundo de documentos sobre os militares da Marinha.
Medalhão de identificação — uma cápsula de ebonite com um formulário de papel para dados pessoais, entregue aos soldados do Exército Vermelho até ao outono de 1942.
Correio de campanha — um número de código de uma estação postal militar, usado em vez do número da unidade na correspondência aberta por razões de segurança.