Os antropólogos há muito que assinalam que a família nuclear — um casal com filhos, criando a sua descendência isolada da família extensa — é uma anomalia histórica, e não a norma. A primatóloga e antropóloga evolutiva Sarah Blaffer Hrdy, nos seus trabalhos sobre a origem do altruísmo humano, mostra que o Homo sapiens se desenvolveu como uma espécie de «reprodução cooperativa» — ou seja, tradicionalmente uma criança era criada por vários adultos em simultâneo: pais, avós, tias, irmãs mais velhas, vizinhos da comunidade. Este fenómeno é designado em antropologia por aloparentalidade (alloparenting), e ocorre na grande maioria das sociedades humanas ao longo da história. Um casal isolado, sozinho responsável por uma criança sem o apoio de uma rede mais ampla de adultos, é uma invenção ocidental relativamente recente, própria da era industrial, quando as famílias se tornaram mais móveis e se desligaram das comunidades.
Os kibutzim israelitas da primeira metade do século XX levaram a ideia da criação coletiva a um nível institucional: as crianças viviam e eram frequentemente criadas nas casas infantis comuns do kibutz, e não exclusivamente nas famílias dos seus pais biológicos — uma experiência que demonstra historicamente que o vínculo emocional entre progenitor e filho não exige necessariamente um casal romântico a gerir um lar comum «a dois».
Os coparentes de hoje pertencem geralmente a vários grupos amplos. Primeiro, pessoas solteiras que decidiram conscientemente tornar-se pais sem um parceiro conjugal — no estrangeiro existe para elas o termo consolidado «single parent by choice». Segundo, membros da comunidade LGBT para quem uma parceria com uma pessoa do outro sexo, ou com o seu próprio parceiro do mesmo sexo, não é adequada para a conceção, mas que querem criar um filho a dois ou a quatro — muitas vezes num formato em que um casal gay e um casal lésbico planeiam em conjunto um filho que formalmente tem dois pares de pais. Terceiro, pessoas que simplesmente não têm interesse em relações românticas (incluindo parte da comunidade arromântica e assexual), mas que querem concretizar a parentalidade através de uma parceria deliberada, construída sobre valores partilhados de educação, e não sobre a atração.
Os algoritmos de correspondência para a coparentalidade baseiam-se em questões fundamentalmente diferentes das aplicações românticas: em vez de «gosto do seu aspeto», a questão é «as nossas visões coincidem quanto a disciplina, educação religiosa, escola, medicina, local de residência e contribuição financeira». Os perfis em plataformas especializadas incluem geralmente secções sobre a disposição para ser doador ou utilizar material de doador, sobre o grau desejado de envolvimento de cada coparente na vida quotidiana do filho, e sobre expectativas legais — desde a guarda partilhada até ao papel de «segundo progenitor» sem estatuto parental formal. Estes serviços costumam indicar claramente, já no nome e na descrição, que procuram um parceiro especificamente para a parentalidade, e não para um encontro romântico, e expressões como «coparenting», «platonic parenting» ou «encontrar um coparente» são, em si mesmas, uma das formas mais frequentes de procurar este tipo de serviço online.
A legislação sobre direitos parentais para coparentes que não são casados e não têm ambos um vínculo biológico com o filho varia enormemente de país para país, e até de estado para estado dentro de um mesmo país. Em algumas jurisdições é possível estabelecer uma parentalidade legal conjunta para ambos os parceiros, independentemente do seu estado civil; noutras, por defeito, apenas um dos parceiros será reconhecido como progenitor legal, e o segundo precisará de uma adoção ou de um processo judicial separado para estabelecer os seus direitos parentais. É precisamente por isso que a maioria dos guias sérios sobre coparentalidade recomenda elaborar um acordo de coparentalidade detalhado e por escrito (parenting agreement) ainda antes da conceção — um documento que descreva as obrigações financeiras, o procedimento de tomada de decisões, o local de residência do filho e o modo de resolução de conflitos — e fazê-lo certificar por um advogado de família precisamente na jurisdição onde o filho vai realmente viver.
Existe uma categoria separada de acordos de coparentalidade em que um dos parceiros não atua como cuidador em igualdade de condições, mas como doador de células reprodutoras, contando com um determinado grau de envolvimento na vida do filho — desde a doação totalmente anónima até a um «pai doador» ativo, que visita o filho regularmente. Os países regulam de forma muito diferente o direito do filho, já adulto, de conhecer a identidade do doador: no Reino Unido, por exemplo, a doação deixou de ser anónima por defeito para futuros filhos a partir de 2005, ao passo que noutros países o anonimato do doador continua a ser a norma obrigatória. Antes de começar a procurar um parceiro para a coparentalidade, vale a pena definir claramente para si próprio que modelo — criação compartilhada em igualdade de condições ou um acordo de doação com participação limitada — cada parte espera, já que o desencontro destas expectativas continua a ser uma das causas mais frequentes de conflitos posteriores.
Encontrar o parceiro certo é apenas o primeiro passo: o verdadeiro caminho até ao nascimento de um filho exige quase sempre a participação de toda uma equipa de especialistas, e não apenas dos dois futuros progenitores. Um advogado de família é necessário para elaborar o acordo de coparentalidade e garantir o estatuto parental de cada parte; um especialista em reprodução ou uma clínica de fertilidade trata do lado médico da conceção, sobretudo se for utilizado material de doador; um psicólogo especializado em modelos familiares alternativos ajuda a discutir as expectativas com antecedência e a reduzir o risco de conflitos que, de outro modo, só surgiriam depois do nascimento do filho. As plataformas que se limitam a emparelhar parceiros e não dão acesso a essa rede de especialistas deixam os futuros coparentes sozinhos perante a parte mais difícil do percurso — por isso, ao escolher um serviço, vale a pena olhar não só para o algoritmo de correspondência, mas também para o que é oferecido depois do primeiro contacto: acompanhamento jurídico, consultas médicas, apoio psicológico e, por vezes, materiais educativos sobre genética da compatibilidade e saúde reprodutiva.
Os coparentes também pensam frequentemente no panorama de longo prazo: que história de origem vai conhecer um filho criado numa estrutura familiar não tradicional, e como tornar essa história coerente em vez de confusa. Muitas comunidades de coparentalidade cruzam-se com um interesse pela genealogia — construir uma árvore genealógica, investigar o que se passava no mundo na época dos antepassados, por vezes até transformar os resultados dessa investigação num livro para o filho — como forma de dar a um futuro membro da família um sentido estável de raízes, seja qual for a forma em que essa família foi criada.
A coparentalidade sem relação romântica não é uma anomalia moderna, mas o regresso a um modelo de cuidado distribuído da descendência, há muito conhecido pela nossa espécie, apenas numa forma nova e deliberadamente planeada. Acordos claros desde o início — sobre valores, estatuto legal e grau de envolvimento de cada parte — determinam se essa parceria se torna uma base estável para criar um filho durante décadas.
Na MAPASGEN, o questionário de correspondência de coparentes é construído em torno de valores, expectativas de envolvimento na criação e preferências legais, e não da aparência ou da química romântica. A comunidade reúne pessoas que veem a coparentalidade como um projeto próprio e planeado, e não como um efeito secundário de uma relação romântica.
Coparentalidade (coparenting) — parceria entre dois ou mais adultos que criam um filho juntos sem terem uma relação romântica entre si.
Single parent by choice — pessoa que decidiu de forma consciente tornar-se progenitor sem parceiro conjugal.
Aloparentalidade (alloparenting) — termo antropológico que designa a participação na criação de um filho de adultos que não são os seus pais biológicos.
Acordo de coparentalidade (parenting agreement) — documento escrito que descreve as obrigações, as condições financeiras e o procedimento de tomada de decisões dos coparentes antes da conceção do filho.
Registo de doadores e irmãos (donor sibling registry) — base de dados que permite às famílias que utilizam material de doador encontrarem-se entre si e aos meios-irmãos dos seus filhos.