Em busca de raízes coreanas na Rússia: a história dos koryo-saram

§ 01

No verão de 1863, várias famílias camponesas coreanas, fugindo da fome nas províncias setentrionais da Coreia, atravessaram secretamente o rio Tumen e se estabeleceram no vale de Tizinhe, no sul do Primorie russo — então uma margem quase despovoada do império, anexada apenas cinco anos antes. Assim começou a história dos koryo-saram, os coreanos étnicos da Rússia e do espaço pós-soviético. Exatamente setenta e quatro anos depois, em setembro de 1937, ao longo de onze dias, a NKVD carregaria em vagões de carga e deportaria para o Cazaquistão e o Uzbequistão cerca de 172 mil descendentes daqueles primeiros colonos — a primeira deportação étnica total da história soviética, sem uma única exceção e sem julgamento, que se tornaria um precedente sinistro para todas as operações semelhantes posteriores.

Entre essas duas datas cabe a história de uma comunidade que chegou a se tornar um dos centros do movimento coreano de libertação nacional contra a colonização japonesa, sobreviveu a uma das deportações mais rápidas e completas do século XX e, por fim, se dispersou por todo o espaço pós-soviético — dos kolkhozes milionários do Cazaquistão às diásporas atuais de Rostov e Krasnodar. Para quem busca raízes coreanas na Rússia, compreender essa cronologia — geográfica tanto quanto temporal — é a principal ferramenta para se orientar nos arquivos de três estados atuais.

§ 02

Da fome na Coreia ao Primorie: o reassentamento de 1860-1910

A primeira onda de migração coreana para a Rússia foi provocada por uma fome catastrófica nas províncias coreanas setentrionais de Hamgyong na década de 1860 — mesmo com a própria Coreia permanecendo, naquela época, um Estado fechado que proibia terminantemente a emigração sob pena de morte. Ainda assim, por volta de 1869-1870, após mais uma quebra de safra, milhares de famílias coreanas cruzavam ilegalmente a fronteira e se estabeleciam no sul do Primorie, que a Rússia obtivera da China pelo Tratado de Pequim de 1860 e que necessitava urgentemente de mão de obra para desenvolver uma região praticamente vazia.

No início do século XX, e especialmente após a anexação da Coreia pelo Japão em 1910, o fluxo migratório passou a incluir não apenas camponeses refugiados, mas também emigrados políticos — membros da resistência coreana, para quem o Primorie russo se tornou uma das principais bases da luta antijaponesa. O bairro coreano de Sinhanchon ("Novo Assentamento Coreano"), surgido perto de Vladivostok, transformou-se na capital de fato da diáspora coreana e centro do movimento de libertação nacional, onde eram publicados jornais coreanos, funcionavam escolas e se baseavam organizações clandestinas de resistência ao regime colonial japonês. Por volta de 1917, cerca de 100 mil coreanos étnicos viviam no Primorie.

§ 03

O Extremo Oriente soviético: entre o apoio e a suspeita

Nas primeiras décadas soviéticas, a população coreana do Extremo Oriente recebeu certa autonomia cultural: funcionavam escolas coreanas, editoras, sovietes rurais nacionais e kolkhozes, e o ensino era ministrado em coreano. Ao mesmo tempo, o poder soviético — assim como faria mais tarde com os fino-ingermanlandeses e a população polonesa dos distritos de fronteira — via cada vez mais os coreanos como um grupo potencialmente pouco confiável, precisamente por causa da posição fronteiriça da região — a vizinhança com o Japão, que àquela altura ocupara não apenas a Coreia, mas também a Manchúria, transformando a região em zona de aguda confrontação político-militar.

É revelador que a deportação dos coreanos em 1937 dificilmente possa ser chamada de espontânea: em grande medida, foi um projeto-piloto da política étnica soviética. Uma resolução do Conselho de Comissários do Povo e do Comitê Central do PC(b) da URSS, de 21 de agosto de 1937, justificava diretamente a expulsão pela necessidade de "impedir a penetração da espionagem japonesa", e a própria operação serviu posteriormente de modelo organizacional e ideológico para as deportações de chechenos, tártaros da Crimeia, alemães do Volga e outros povos nos anos seguintes da guerra.

§ 04

Setembro de 1937: deportação total sem exceções

A deportação, realizada entre setembro e outubro de 1937, diferiu da maioria das operações étnicas posteriores da NKVD por uma característica fundamental: foi absolutamente total, sem distinção entre "pouco confiáveis" e "leais" — devia ser expulsa toda a população coreana do Krai do Extremo Oriente sem exceção, incluindo membros do partido, soldados do Exército Vermelho e funcionários soviéticos de nacionalidade coreana. Cerca de 172 mil pessoas foram carregadas em trens de carga e transportadas, ao longo de aproximadamente um mês, por milhares de quilômetros até as RSS do Cazaquistão e do Uzbequistão, muitas vezes sem qualquer ideia clara do destino final e sem poder levar seus pertences.

As condições do transporte e do primeiro inverno no novo local mostraram-se extremamente duras: os deportados eram frequentemente desembarcados a céu aberto na estepe, sem moradia, e a mortalidade nos primeiros meses foi considerável, embora a estatística soviética não tenha preservado números globais exatos. Para a pesquisa genealógica, isso cria uma ruptura característica nos documentos: a última menção da família em seu local de residência no Extremo Oriente em 1937, e a primeira, já nos materiais dos assentamentos especiais e kolkhozes do Cazaquistão ou do Uzbequistão, sem transição arquivística fluida entre os dois.

§ 05

A vida na Ásia Central: kolkhozes, a língua koryo-mar e uma nova identidade

Apesar do início trágico, os coreanos deportados para a Ásia Central conseguiram, ao longo de várias décadas do pós-guerra, criar alguns dos kolkhozes economicamente mais bem-sucedidos de toda a Ásia Central soviética, especializados no cultivo de arroz e hortaliças; vários empreendimentos, incluindo o famoso kolkhoz "Estrela Polar" (antes "Politotdel"), sob a liderança de Kim Pyong Hwa, alcançaram status de milionários, e seus presidentes receberam o título de Herói do Trabalho Socialista — um caso raro em que um povo deportado obteve esse tipo de reconhecimento tão rapidamente dentro do sistema soviético.

Foi justamente na Ásia Central que se formou a identidade específica dos koryo-saram como comunidade étnica à parte, distinta tanto dos coreanos da península quanto dos coreanos do Extremo Oriente russo do período anterior à era soviética. O marcador-chave dessa identidade é a língua koryo-mar, um dialeto do coreano baseado nas variedades setentrionais de Hamgyong, consideravelmente diferente do coreano literário moderno (tanto o padrão do sul quanto o do norte) e praticamente incompreensível para falantes da língua padrão. Para a pesquisa genealógica, a preservação ou, ao contrário, a perda do koryo-mar em uma família específica pode servir de indicador indireto da profundidade e do caráter da assimilação.

§ 06

Dispersão pós-soviética: migração de retorno e novas diásporas

Após o colapso da URSS, os koryo-saram se viram divididos pelas fronteiras estatais das novas repúblicas independentes da Ásia Central, e uma parcela considerável da comunidade iniciou uma nova migração — desta vez para as regiões meridionais da Rússia (oblast de Rostov, krai de Krasnodar, krai de Stavropol), onde se formaram novas comunidades agrícolas coreanas compactas, além da República da Coreia, onde, desde a década de 1990, vigoram programas facilitados de visto e trabalho para coreanos étnicos no exterior (compatriotas, dongpo).

Essa terceira migração na sequência — da Ásia Central para a Rússia e a Coreia — acrescenta, para os descendentes atuais das famílias deportadas, mais uma camada de pesquisa arquivística: documentos sobre mudança, registro e obtenção de cidadania após 1991, que costumam ser conservados não em arquivos históricos, mas nos arquivos migratórios e consulares correntes dos respectivos países.

§ 07

Arquivos e fontes práticas

O rastro arquivístico dos koryo-saram está disperso por três estados atuais, conforme o período; a tabela abaixo oferece um guia resumido para se orientar em cada etapa da pesquisa.

§ 08

Por onde começar: um plano passo a passo

O primeiro passo é estabelecer o período de vida da família no Extremo Oriente (anterior ou do início da era soviética) por meio do RGIA DV em Vladivostok: listas familiares e materiais de censo podem reconstruir a história até os primeiros colonos do final do século XIX. O segundo passo é encontrar os documentos da deportação de 1937 e do subsequente registro como colono especial nos arquivos regionais do Cazaquistão ou do Uzbequistão, orientando-se pela tradição oral familiar sobre o local de reassentamento efetivo.

O terceiro passo é solicitar o processo de reabilitação junto à delegacia regional do FSB correspondente ao local de residência anterior à guerra no Extremo Oriente: esses processos costumam conter uma nota biográfica breve, porém precisa, que restabelece os elos perdidos entre o período do Extremo Oriente e o da Ásia Central. O quarto passo, especialmente produtivo na ausência de documentos de arquivo, é procurar a Associação de Toda a Rússia dos Coreanos ou centros culturais coreanos regionais, que dispõem de bases informais, mas extensas, de depoimentos orais sobre a deportação e o reassentamento pós-guerra.

§ 09

Conclusão

A história dos koryo-saram é incomum por caber na vida de apenas três ou quatro gerações, atravessando, no entanto, as fronteiras de quatro estados: a fuga da fome de uma Coreia imperial fechada, meio século de vida no Extremo Oriente russo como minoria ora incentivada, ora suspeita, a deportação total de 1937 para a Ásia Central soviética e, por fim, uma nova dispersão após 1991 — para a Rússia e para a República da Coreia. Cada um desses períodos deixou documentos em seu próprio sistema arquivístico, e é justamente o caráter total, sem exceções, da deportação de 1937 que torna a ruptura entre o período do Extremo Oriente e o da Ásia Central especialmente acentuada, exigindo uma pesquisa arquivística direcionada, e não genérica.

A conclusão prática para o pesquisador é a seguinte: começar pelo RGIA DV em Vladivostok para reconstituir o período do Extremo Oriente, depois ir diretamente aos arquivos do Cazaquistão ou do Uzbequistão do local de reassentamento efetivo após a deportação, verificar sempre os processos de reabilitação por meio do FSB regional, e em todas as etapas recorrer aos recursos das organizações culturais coreanas, que muitas vezes preenchem as lacunas dos arquivos oficiais com história oral coletada junto às próprias famílias que viveram a deportação e seus descendentes.

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Glossário

Koryo-saram — autodenominação dos coreanos étnicos da Rússia e dos estados pós-soviéticos, descendentes de colonos vindos da Coreia desde a década de 1860.

Sinhanchon — bairro coreano perto de Vladivostok, o maior centro da diáspora coreana e do movimento de libertação nacional no início do século XX.

Koryo-mar — dialeto do coreano baseado nas variedades setentrionais de Hamgyong, formado entre os koryo-saram; consideravelmente diferente do coreano literário moderno.

Colonos especiais — estatuto dos povos deportados na URSS, que implicava restrição da liberdade de circulação e registro obrigatório no local de assentamento forçado.

RGIA DV — o Arquivo Histórico Estatal Russo do Extremo Oriente em Vladivostok, principal fonte de documentos sobre a população coreana do Primorie nos períodos anterior e do início da era soviética.

Dongpo — termo coreano que designa os coreanos étnicos no exterior ("compatriotas"), aos quais se aplicam os programas facilitados de visto e trabalho da República da Coreia.