Gestação de substituição na República Checa: o que a lei realmente diz e para quem é indicada

§ 01

Em 2006, o parlamento espanhol aprovou a Lei 14/2006 sobre técnicas de reprodução humana assistida, que, no artigo 10.º, declarou expressamente nulos os contratos de gestação de substituição — sem força jurídica, independentemente de a contrapartida ser comercial ou limitar-se a cobrir despesas. Desde então, qualquer casal ou pessoa solteira em Espanha que queira tornar-se progenitor através de uma gestante de substituição enfrenta a mesma escolha: desistir deste caminho ou procurá-lo fora do país. A República Checa — membro da União Europeia e do espaço Schengen, com longa experiência no atendimento de pacientes estrangeiros em medicina reprodutiva — tornou-se um dos destinos mais procurados precisamente por este motivo.

No entanto, a própria República Checa não optou por permitir expressamente a gestação de substituição: optou pelo silêncio da lei. O que isto significa exatamente na prática, em que difere a gestação de substituição na República Checa da doação de óvulos — totalmente legal e regulada por lei própria — e que passos jurídicos é preciso dar antes da conceção, e não depois do nascimento da criança, é o tema deste artigo.

§ 02

Uma lei que não diz nem sim nem não

Na República Checa não existe uma lei específica sobre gestação de substituição — nem que a proíba, nem que a permita. O princípio básico do direito da família checo, consagrado no Código Civil de 2012, em vigor desde 2014, resume-se numa fórmula latina simples: mater semper certa est — «a mãe é sempre certa». A lei reconhece como mãe da criança a mulher que a deu à luz, independentemente de qual óvulo foi usado na conceção. Isto significa que um acordo de gestação de substituição não tem, por si só, força jurídica direta: do ponto de vista do direito checo, a gestante permanece a mãe legal da criança no momento do nascimento, independentemente do que esteja estipulado no contrato com os futuros pais.

Só é admitido o modelo altruísta: a gestante pode receber o reembolso das despesas reais relacionadas com a gravidez, o acompanhamento e o parto, mas não uma remuneração como pagamento de um serviço. Na prática, a fronteira entre «reembolso de despesas» e «pagamento» é traçada pelas próprias clínicas e intermediários jurídicos — e é precisamente por isso que a escolha do intermediário na República Checa tem tanta importância como a escolha da clínica.

§ 03

Como a criança passa juridicamente da gestante para os futuros pais

Após o parto, inicia-se um procedimento chamado na República Checa osvojení —adoção—, na sua forma mais simplificada e rápida, se todas as partes agirem de forma concertada. A gestante dá, dentro do prazo fixado por lei —geralmente pelo menos seis semanas após o parto—, o seu consentimento para a entrega da criança, após o que os futuros pais iniciam o processo de adoção junto dos serviços de proteção de menores e dos tribunais.

Se o pai genético da criança for um dos futuros pais, ou seja, se o seu esperma foi usado, a paternidade pode, na maioria dos casos, ser estabelecida por reconhecimento de paternidade, sem passar por toda a adoção. O parceiro do pai genético —esposa ou parceira— tem, em qualquer caso, de passar pela adoção para obter direitos parentais. Para casais não casados e pessoas solteiras, o procedimento complica-se e depende muito do tribunal concreto e da composição da família.

Este processo demora entre vários meses e um ano e exige presença física na República Checa nas etapas-chave —algo a ter em conta no planeamento de viagens e de licenças de trabalho.

§ 04

Por que um caminho é um procedimento de rotina e o outro uma zona cinzenta

A diferença entre estes dois caminhos para a parentalidade na República Checa não está na complexidade médica, mas em quem leva fisicamente a gravidez. Se um óvulo de dadora é fecundado e transferido para o útero da própria futura mãe, esta torna-se automaticamente, desde o momento do parto, a mãe legal da criança: a maternidade é determinada pelo facto de dar à luz, e é ela quem dá à luz. Aqui não surgem complicações jurídicas, e é por isso que a doação de óvulos na República Checa é regulada por uma lei própria e funciona como um serviço médico de rotina. A gestação de substituição funciona de outra forma: uma pessoa leva a gravidez e outra deve criar a criança —e uma lei orientada para o facto do parto, e não para a genética ou a intenção, simplesmente não foi escrita para esta situação.

§ 05

Quanto custa o programa e em que se compõe

O custo da gestação de substituição na República Checa compõe-se de várias rubricas independentes, e as diferenças de preço entre agências e clínicas explicam-se sobretudo pelo que está incluído no pacote, e não por diferenças na qualidade dos cuidados médicos.

Rubrica de custo

Custo aproximado

Protocolo médico de FIV (estimulação, punção, transferência)

€4.000–7.000

Óvulo de dadora, se utilizado

€2.500–4.000

Compensação da gestante

€10.000–15.000

Acompanhamento jurídico e processo de adoção

€3.000–6.000

Coordenação do programa pela agência

€5.000–10.000

Programa completo «chave na mão»

€35.000–55.000

Em comparação, um programa semelhante nos Estados Unidos custa, em média, duas a três vezes mais, enquanto na Grécia ou em Cipre é 10–20 % mais económico, mas com uma infraestrutura claramente menos desenvolvida para clientes de língua inglesa e espanhola.

§ 06

Comparação com outros países acessíveis a pacientes de língua espanhola

Uma vez que a gestação de substituição é proibida na própria Espanha, vale a pena comparar a República Checa não só com a situação jurídica interna, mas também com outros destinos a que recorrem efetivamente os pacientes de língua espanhola.

País

Estatuto jurídico da gestação de substituição

Espanha

Proibida: os contratos são juridicamente nulos nos termos da Lei 14/2006

República Checa

Não regulada por lei própria: zona cinzenta jurídica, só é admitida a forma altruísta, é exigida adoção após o parto

Grécia

Permitida para casais heterossexuais e mulheres solteiras com indicação médica, exige autorização judicial prévia

Ucrânia

Permitida apenas para casais heterossexuais casados que não sejam cidadãos ucranianos

Geórgia

Permitida para casais heterossexuais casados, infraestrutura relativamente desenvolvida para estrangeiros

EUA (alguns estados, por exemplo Califórnia)

Permitida, incluindo a forma comercial, a proteção jurídica mais desenvolvida para os futuros pais

México

Depende do estado; desde 2021 o acesso para cidadãos estrangeiros está muito restringido

Colômbia

Não regulada por lei própria, praticada no âmbito das normas gerais de adoção

§ 07

O que ter em conta ao escolher agência ou clínica

§ 08

O principal risco não está na República Checa, mas em casa

O erro mais comum e mais dispendioso é estudar a fundo a legislação checa e não estudar a legislação do país a que se vai regressar com a criança. A Espanha não reconhece a gestação de substituição e não reconhece automaticamente uma decisão de adoção de um tribunal checo nem um documento estrangeiro sobre a filiação da criança, se este contrariar o princípio mater semper certa est, também vigente no direito espanhol. Isto significa que o pai genético normalmente pode ser reconhecido como progenitor através de um teste de ADN, enquanto o seu parceiro ou parceira só pode tornar-se progenitor através de um processo de adoção realizado já em Espanha —o que exige tempo adicional e uma estratégia jurídica própria, acordada antecipadamente, antes do início do programa na República Checa, e não depois do regresso com a criança.

§ 09

Como é o programa desde o primeiro contacto até ao regresso a casa

A maioria dos programas de gestação de substituição na República Checa segue a mesma sequência de etapas, distribuída por 12 a 18 meses no total, e não apenas pela parte médica.

Etapa 1. Seleção da gestante e da equipa jurídica (1–3 meses)

A agência propõe várias candidatas tendo em conta indicações médicas, estilo de vida e preferências pessoais dos futuros pais. Nem todas as candidatas são medicamente adequadas, e nem com todas se consegue entendimento à primeira —por isso esta etapa raramente demora menos de um mês.

Etapa 2. Protocolo médico: da estimulação à transferência (2–3 meses)

Se for utilizado o óvulo da futura mãe ou de uma dadora, o protocolo começa com a estimulação ovárica e a punção habituais; depois o embrião é cultivado em laboratório e transferido para o útero já preparado da gestante. A taxa de sucesso da primeira transferência é de cerca de 40–60%, dependendo da idade da dadora de óvulos e da qualidade dos embriões, por isso vale a pena discutir com antecedência com a clínica o que fazer se a primeira tentativa não resultar em gravidez.

Etapa 3. Gravidez e acompanhamento à distância (9 meses)

Os futuros pais costumam passar a maior parte da gravidez no seu próprio país, recebendo relatórios regulares da clínica e, conforme acordado, da própria gestante. Isto cria uma sensação particular —depender de uma pessoa que os futuros pais praticamente não conhecem, numa situação que não controlam totalmente—, e vale a pena falar disso abertamente em vez de evitar o tema.

Etapa 4. Parto, adoção e regresso a casa (1–3 meses)

Após o parto, os futuros pais costumam passar entre algumas semanas e alguns meses na República Checa —exatamente o tempo necessário para apresentar o pedido de adoção, obter a certidão de nascimento checa e tratar dos documentos necessários para que a criança possa sair do país.

§ 10

A relação com a gestante: um tema raramente discutido com antecedência

As expectativas variam radicalmente de gestante para gestante e de futuros pais para futuros pais. Algumas gestantes querem receber fotos e notícias da criança durante anos após o parto; outras preferem cortar todo o contacto logo após a conclusão do processo jurídico. Nenhuma destas opções é «a correta» por defeito —os problemas surgem quando as expectativas das partes não coincidem e não foram discutidas com antecedência.

Uma boa prática é fixar por escrito as preferências quanto ao contacto antes do início do protocolo, em vez de deixar esta questão para «ver como corre». Isto aplica-se não só ao período após o parto, mas também à forma de comunicação durante a própria gravidez: com que frequência as partes se contactam, quem assiste às ecografias, com que rapidez a gestante comunica qualquer alteração no seu estado.

§ 11

O que é importante recordar

§ 12

Glossário

A Lei 14/2006 fechou para as famílias espanholas o caminho para a gestação de substituição dentro do país, mas não fechou o caminho para a parentalidade em si: apenas o transferiu para o estrangeiro, para locais onde a lei a permite expressamente ou, como no caso da República Checa, simplesmente não a proíbe. A diferença entre estas duas formulações é pequena no papel, mas é precisamente nela que reside a principal fonte tanto de oportunidades como de riscos para quem escolhe a República Checa.