A FIV recíproca — conhecida pelo acrónimo ROPA — é uma técnica de fertilização in vitro em que os ovócitos são recolhidos de uma das parceiras, fertilizados com sémen de dador, e o embrião obtido é transferido para o útero da outra, que irá gestar e dar à luz o bebé. Uma é mãe genética, a outra é mãe gestacional. As duas têm uma ligação biológica ao filho — diferente, mas real.
O protocolo médico desenvolve-se em várias etapas. A parceira que doa os ovócitos faz uma estimulação ovárica durante 10 a 14 dias, seguida de uma punção folicular sob anestesia. Os ovócitos recolhidos são fertilizados em laboratório com sémen de dador anónimo. Os embriões são cultivados 3 a 5 dias e o melhor — ou os melhores — são transferidos para o útero da parceira gestante, que preparou o seu endométrio com estrogénios.
Para quem é adequada a ROPA? Para casais em que as duas parceiras querem participar no processo e nenhuma tem contraindicações médicas para o seu papel. A idade da dadora de ovócitos é determinante: os resultados são notavelmente melhores antes dos 35 anos. Se uma das parceiras se aproxima dos 38-40, a clínica recomendará habitualmente uma conversa aberta sobre quem assume que papel.
A ROPA é mais cara do que uma FIV padrão com sémen de dador porque implica dois protocolos médicos distintos. Em Espanha, onde a técnica está bem estabelecida e é legal, um ciclo completo custa entre 6.000 e 9.000 euros sem contar o sémen de dador. Em Portugal, a lei n.º 32/2006 não prevê expressamente a dação de ovócitos entre parceiras no âmbito da PMA, pelo que muitos casais portugueses se deslocam ao estrangeiro para realizar esta técnica.
O aspeto jurídico é um dos mais delicados. Em Portugal, o registo de ambas as mães depende do enquadramento legal em vigor e da forma como a técnica foi realizada. A consulta a um advogado especializado em direito da família antes de iniciar o tratamento é, por isso, imprescindível — especialmente se o tratamento for realizado no estrangeiro.
A dimensão psicológica da ROPA é importante e frequentemente subestimada. Os casais descrevem muitas vezes esta experiência como profundamente unificadora: uma dá os genes, a outra dá o corpo. Ainda assim, algumas parceiras atravessam emoções complexas que vale a pena nomear e partilhar — antes, durante e após o processo.
A escolha do dador de sémen não difere essencialmente de uma FIV padrão. O casal seleciona conjuntamente um dador anónimo ou com acesso à identidade de um banco autorizado — com base no perfil médico, fenótipo e, se disponível, uma mensagem de áudio ou vídeo.
A vitrificação de embriões faz parte integrante do protocolo ROPA. Se a punção produzir vários ovócitos de boa qualidade, podem criar-se vários embriões e vitrificar os excedentes. Este ponto merece uma conversa prévia: o que acontece com esses embriões se a relação terminar, se uma das parceiras falecer, ou se o casal decidir não ter um segundo filho?
A ROPA não é o único caminho para os casais de mulheres. As alternativas são a FIV padrão com sémen de dador, a IIU quando está indicada medicamente, e a coparentalidade com um dador masculino conhecido. A opção certa depende das avaliações médicas, do orçamento, do contexto legal e dos desejos do casal.
Para muitos casais, a ROPA é muito mais do que um ato médico — é uma escolha simbólica forte. Partilhar a criação de um filho entre dois corpos, duas histórias, duas mulheres: esta possibilidade única é muitas vezes uma das razões principais pelas quais os casais escolhem esta via mais complexa.
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