Episodio 7 · MAPASGEN · Material gratuito
E uma das divisoes culinarias mais persistentes da humanidade. Para uma parte das pessoas, o coentro tem um sabor fresco, citrico, irresistivel. Para a outra — a sabao ou spray de insetos. Ambas tem razao. Ambas descrevem a mesma planta. E a diferenca esta no ADN.
O paladar nao e uma ilusao subjetiva. E um sistema bioquimico preciso que evoluiu para nos proteger de toxinas, ajudar-nos a encontrar alimentos e regular o corpo. E como todos os sistemas biologicos, varia de pessoa para pessoa — determinado geneticamente.
Em 2012, cientistas da 23andMe identificaram, atraves de um estudo GWAS com mais de 14.000 participantes, um marcador genetico especifico que influencia a percepcao do coentro: o SNP rs72921001 no gene OR6A2.
OR6A2 codifica um recetor olfativo — uma das centenas de proteinas recetoras do nariz que detetam diferentes moleculas. O coentro contem aldeidos — compostos quimicos que tambem se encontram no sabao e em alguns insecticidas. As pessoas com uma determinada variante de OR6A2 sao particularmente sensiveis a estes aldeidos e percebem-nos como nota dominante — dai o sabor a sabao.
Matiz importante: OR6A2 nao explica tudo. No estudo, os portadores da 'variante sabao' representavam apenas cerca de 50% dos que nao gostavam de coentro. O resto da aversao deve-se a outras variantes geneticas, experiencias e condicionamento cultural. A genetica e probabilidade, nao sentenca.
O sabor amargo e o sistema de alarme do nosso corpo. A maioria das substancias toxicas na natureza sao amargas — e desenvolvemos 25 genes recetores do amargo diferentes para as detetar. TAS2R38 e um dos mais importantes.
TAS2R38 existe em duas variantes principais: PAV (sensivel a substancias amargas como o PTC — feniltiocarbamida) e AVI (insensivel). Os portadores do genotipo PAV/PAV percebem certas substancias amargas como muito intensas; os AVI/AVI, como praticamente insipidas.
Descoberta historica: A variacao na percepcao do amargor foi descoberta em 1931 — literalmente por acidente. O quimico Arthur Fox deixou escapar no laboratorio um pouco de po de PTC para o ar. Ele proprio nao sentiu nada. O seu colega queixou-se de um sabor terrivelmente amargo. Isso levou Fox a examinar centenas de voluntarios — e descobriu que cerca de 30% das pessoas nao conseguem perceber o PTC de forma alguma. Foi a primeira vez na historia que se documentou uma variacao genetica no paladar humano. |
A cafeina e a substancia psicoativa mais consumida do mundo. Mas as pessoas reagem a ela de formas muito diferentes — e nao e apenas uma questao de habito.
O gene CYP1A2 codifica uma enzima do figado que metaboliza a cafeina. Os metabolizadores rapidos de CYP1A2 eliminam-na muito mais depressa — podem tomar mais cafe mais tarde no dia sem problemas de sono. Os lentos acumulam cafeina durante mais tempo no sangue — neles o risco de ansiedade e palpitacoes induzidas pela cafeina e maior.
Significado pratico: Um estudo GWAS publicado em 2018 no PLoS Genetics com mais de 120.000 participantes identificou sete variantes geneticas que influenciam a quantidade de cafe que as pessoas consomem — incluindo genes que regulam o metabolismo da cafeina, o sistema de recompensa do cerebro e a pressao arterial.
— Continuacao no material PRO —
O material PRO contem o seu perfil de paladar pessoal: como encontrar os seus SNPs-chave no ficheiro do seu teste de ADN, o que dizem sobre as suas preferencias por doce, amargo, salgado e gordo, e por que os supertasters evitam mais frequentemente os legumes.
No Premium: a ciencia por tras do picante — como a capsaicina ativa o recetor TRPV1, por que algumas pessoas literalmente nao sentem dor com o picante, e o que explica o paradoxo evolutivo de comer piri-piri.
MAPASGEN — o podcast sobre genetica que ja esta a mudar a sua vida.