Direitos no trabalho durante o tratamento de fertilidade: o que precisa de saber

§ 01

O tratamento de fertilidade não se adapta facilmente a um horário de trabalho. Uma ecografia às 8h da manhã, análises num dia específico do ciclo, punção folicular a meio da semana de trabalho — tudo acontece quando é medicamente necessário, não quando é conveniente. Isto cria uma tensão real entre a necessidade médica e as obrigações profissionais.

A proteção legal dos trabalhadores em tratamento de fertilidade varia consideravelmente na Europa de país para país. Em alguns estados existem disposições específicas; noutros é necessário recorrer ao direito laboral geral e à legislação antidiscriminação. Este artigo oferece uma visão geral — mas para a sua situação específica consulte sempre um advogado ou representante sindical no seu país.

§ 02

Baixa médica e licenças durante o tratamento

A maioria dos procedimentos médicos no âmbito do tratamento de fertilidade — incluindo a punção folicular e a transferência de embrião — são formalmente intervenções médicas. Isso significa que a baixa médica deve estar disponível nas mesmas condições que para qualquer outro procedimento ambulatório.

A dificuldade é que o tratamento de fertilidade envolve muitas consultas que não são «procedimentos» em sentido estrito: ecografias de controlo, análises de sangue, consultas. Estas são mais difíceis de cobrir com baixa médica, e os trabalhadores acabam muitas vezes por usar dias de férias ou pedir dias sem vencimento. Isto é particularmente injusto dado que um ciclo de FIV pode envolver dez ou mais consultas.

Em alguns países europeus a situação está a começar a mudar. A Espanha introduziu em 2023 dias de licença remunerada específicos para razões de saúde feminina, incluindo procedimentos ginecológicos. Portugal garante o direito a baixa médica para FIV. Nos Países Baixos e na Bélgica podem ser utilizadas licenças médicas. Verifique as regras em vigor no seu país.

§ 03

Confidencialidade: é obrigado(a) a revelar

Uma das perguntas mais frequentes: tenho de dizer ao meu empregador que estou em tratamento de fertilidade? A resposta curta é não. Na maioria dos países europeus a informação médica é confidencial e os trabalhadores não são obrigados a revelar um diagnóstico ou a natureza do tratamento.

Ao pedir uma baixa médica apresenta-se uma declaração médica que atesta a incapacidade temporária — sem mencionar o diagnóstico na grande maioria dos casos. O empregador não tem o direito de exigir detalhes sobre o estado de saúde.

Isso é a teoria. Na prática muitas pessoas enfrentam — de forma explícita ou implícita — pressão para justificar ausências frequentes. O essencial a reter é que pode partilhar o que entender. «Estou a receber tratamento médico» é uma resposta completa e juridicamente suficiente que não requer mais detalhe.

Se decidir contar mais ao seu empregador, essa é a sua decisão, e pode facilitar as negociações sobre horário flexível. Mas avalie o ambiente de trabalho: infelizmente existe estigma em torno do tratamento de fertilidade, e nem todos os responsáveis reagem com compreensão.

§ 04

Horário flexível e trabalho remoto

Negociar um horário flexível para o período de tratamento é uma das abordagens mais práticas. Na maioria dos países da UE os trabalhadores têm o direito de solicitar um regime de trabalho flexível, e o empregador é obrigado a considerar o pedido de boa-fé — embora nem sempre seja obrigado a concedê-lo.

Se o teletrabalho é possível na sua função, é muitas vezes o formato mais conveniente: pode fazer uma análise de sangue cedo de manhã e depois trabalhar a partir de casa, ou ir a uma punção e retomar o trabalho depois. Muitas pessoas completam ciclos inteiros de FIV sem baixa médica formal precisamente graças à flexibilidade de horários.

Se o seu trabalho não permite flexibilidade, vale a pena falar antecipadamente com o seu superior direto — sem revelar necessariamente os detalhes — sobre a possibilidade de ajustar parte do horário. «Tenho várias consultas médicas nos próximos dois ou três meses» costuma ser suficiente para chegar a um acordo prático.

§ 05

Proteção contra o despedimento e a discriminação

Esta é uma área juridicamente complexa, e a resposta depende do país. Em vários estados-membros da UE o tratamento de fertilidade enquadra-se nas proteções antidiscriminatórias por razão de sexo ou estado de saúde — especialmente no que respeita às mulheres, dado que a maioria dos procedimentos envolve o corpo feminino.

Um precedente fundamental a nível da UE é o acórdão Mayr do Tribunal de Justiça da UE (2008): o Tribunal declarou que o despedimento de uma mulher após a punção folicular mas antes da transferência de embrião em FIV constitui discriminação em razão do sexo ao abrigo da Diretiva da igualdade de tratamento. Este acórdão aplica-se em todos os países da UE, embora a sua aplicação prática varie.

O princípio mais amplo: se um empregador toma decisões que prejudicam uma trabalhadora direta ou indiretamente relacionadas com o facto de estar em tratamento de fertilidade, isso é potencialmente discriminatório. Na prática, provar a ligação é difícil e a maioria dos casos permanece numa zona cinzenta.

O que convém fazer se se teme discriminação: registar por escrito todas as interações com o empregador, ou confirmar por escrito o que foi dito verbalmente. Isto cria uma base de prova caso a situação se agrave.

§ 06

Parceiros e direitos de paternidade

A maioria da legislação de proteção durante o tratamento de fertilidade está orientada para as mulheres — o que reflete a realidade médica de que a maioria dos procedimentos envolve o corpo feminino. Os direitos dos parceiros (sejam homens ou mulheres) durante o tratamento são consideravelmente mais fracos na maioria dos países.

Dito isto, os parceiros também assistem a procedimentos — principalmente a colheita de esperma e, se presentes, a punção. Em alguns países existe uma licença específica para parceiros na FIV; noutros aplica-se apenas a baixa médica geral. Verifique o que se aplica no seu país.

Para casais de mulheres a situação é particular: ambas as parceiras podem precisar de se ausentar do trabalho — especialmente na FIV recíproca, em que uma passa pela estimulação e punção. O reconhecimento legal de ambas como partes iguais no tratamento varia consoante o país.

§ 07

Como falar com o empregador

Se decidiu informar o seu empregador sobre o tratamento — parcial ou totalmente — alguns princípios práticos ajudarão a tornar a conversa produtiva.

Seja específica sobre o que precisa, não sobre o que está a viver. «Vou precisar de flexibilidade de horário durante dois ou três meses, com possibilidade de deslocar reuniões de hora» é um pedido construtivo. Os detalhes médicos são um assunto privado.

Sempre que possível, ofereça uma solução prática. Como vai cobrir as ausências? Teletrabalho noutros horários, redistribuição de tarefas, ajuste temporário de horário? Os empregadores respondem melhor quando lhes é oferecida uma solução já preparada, não apenas um problema.

Se possível, tenha a conversa num momento relativamente calmo — não no dia da punção nem imediatamente após um resultado negativo. Escolha um momento de relativa estabilidade e planeie a conversa com antecedência.

Registe os acordos por escrito. Se o seu responsável concordou com algo verbalmente — envie um resumo por e-mail ou mensagem. Isso protege ambas as partes.

§ 08

A dimensão psicológica: o trabalho como recurso e como fardo

Para muitas pessoas, o trabalho durante o tratamento de fertilidade não é apenas uma obrigação mas também um recurso. A estrutura do dia, a identidade profissional, os contactos sociais — tudo isso pode ser uma âncora importante num período em que tudo o resto parece incerto.

Por outro lado, o trabalho pode gerar stress adicional — prazos, deslocações, a necessidade de aparentar normalidade num momento em que se está emocionalmente fragilizada. Vale a pena avaliar honestamente: o trabalho está a ajudar ou a atrapalhar agora? Se for o segundo caso — reduzir a carga, tirar férias acumuladas ou utilizar o apoio psicológico oferecido pelo empregador pode ser a decisão certa.

Os programas EAP (Employee Assistance Programme) são oferecidos por muitos grandes empregadores europeus. São confidenciais, gratuitos para o trabalhador e incluem acesso a psicólogos e conselheiros. Se o seu empregador oferece um, pode ser um recurso genuinamente valioso neste momento.

§ 09

O essencial

Tratamento de fertilidade e trabalho não são incompatíveis, mas combiná-los requer planeamento, comunicação e conhecimento dos próprios direitos.

Não é obrigada a explicar o seu diagnóstico. Tem direito à confidencialidade médica e a baixa médica por procedimentos médicos. Pode pedir horário flexível sem dar razões. E se sofreu discriminação, tem ferramentas legais para se defender.

O enquadramento legal nesta área está a desenvolver-se ativamente. Mantenha-se informada sobre as alterações legislativas no seu país e consulte um sindicato ou advogado especializado em direito do trabalho se necessário.

§ 10

Glossário

Acórdão Mayr (C-506/06) — acórdão histórico do Tribunal de Justiça da UE de 2008, segundo o qual o despedimento de uma mulher após punção folicular em FIV constitui discriminação em razão do sexo.

Confidencialidade médica — princípio pelo qual a informação médica de um paciente não pode ser divulgada sem o seu consentimento. No direito laboral, protege os trabalhadores da obrigação de revelar um diagnóstico ao empregador.

Diretiva da igualdade de tratamento (2006/54/CE) — principal instrumento da UE contra a discriminação em razão do sexo no emprego. Aplicado pelo TJUE em casos relacionados com tratamentos de fertilidade.

Discriminação em razão do sexo — tratamento menos favorável de um trabalhador em razão do seu sexo. Tribunais da UE reconheceram em alguns casos que decisões relacionadas com o tratamento de fertilidade constituem tal discriminação.

Discriminação indireta — regra ou prática de aparência neutra que na prática desfavorece um grupo específico.

EAP (Employee Assistance Programme) — programa de apoio psicológico e social oferecido pelo empregador. Geralmente confidencial e gratuito para o trabalhador.

Ajustamento razoável — obrigação do empregador de realizar ajustamentos razoáveis nas condições de trabalho em circunstâncias especiais. O alcance exato depende da legislação nacional.

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