A emigração branca: onde encontrar os arquivos da Rússia no exterior

§ 01

Em 1922, o explorador polar e diplomata norueguês Fridtjof Nansen propôs à Liga das Nações uma solução para um problema que nenhum Estado isolado conseguia resolver: centenas de milhares de antigos súbditos do Império Russo tinham fugido da revolução e da guerra civil, não tinham passaporte soviético, não reconheciam o poder soviético e, ao mesmo tempo, não possuíam fisicamente nenhum documento de identidade válido. Assim surgiu o «passaporte Nansen» — um documento de identidade para refugiados sem nacionalidade, reconhecido por mais de 50 países e utilizado até à década de 1930 por dezenas de milhares de emigrados russos. Hoje, a menção de um passaporte Nansen num arquivo familiar ou numa carta antiga é quase uma garantia de que se trata de um refugiado da primeira vaga, e não de um emigrado soviético ou pós-soviético posterior — e isso determina de imediato em que arquivos continuar a procurar.

§ 02

Quantos eram e para onde foram

Segundo diversas estimativas de historiadores, entre um milhão e meio e dois milhões de pessoas deixaram a Rússia após a guerra civil — militares dos exércitos brancos derrotados, nobreza, clero, intelectuais, cossacos, e simplesmente civis que não aceitaram o novo poder. Os principais centros de fixação formaram-se em torno de algumas cidades, e o rasto arquivístico de um emigrado está quase sempre ligado a uma delas. Constantinopla foi a primeira escala para os evacuados através da Crimeia em 1920, incluindo o célebre êxodo do exército do general Wrangel. Berlim, no início da década de 1920, estava tão saturada de emigrados russos que o bairro de Charlottenburg era jocosamente chamado de «Charlottengrado». Praga, graças à «Ação Russa» do governo checoslovaco, que oferecia bolsas e apoio a estudantes e académicos russos, tornou-se um importante centro intelectual. Belgrado e o Reino da Iugoslávia acolheram uma parte significativa dos quadros militares e do clero. Harbin, na Manchúria, transformou-se numa verdadeira cidade russa em território chinês, povoada por funcionários do Caminho de Ferro do Oriente Chinês e seus descendentes. Mas o maior e mais duradouro centro continuou a ser Paris, sobretudo o seu subúrbio de Billancourt, onde se situava a fábrica da Renault e onde muitos antigos oficiais trabalhavam como operários.

§ 03

O Arquivo Bakhmeteff: a memória do exílio, reunida em Nova Iorque

Um dos maiores arquivos sobre a história da emigração russa não se encontra na Europa, mas em Nova Iorque, na Universidade de Columbia. O arquivo tem o nome de Boris Bakhmeteff, último embaixador do Governo Provisório russo nos Estados Unidos, que permaneceu no exílio após a revolução e, em 1951, foi um dos fundadores desta coleção. Durante décadas, o Arquivo Bakhmeteff reuniu sistematicamente documentos pessoais, diários, correspondência e fotografias dos emigrados da primeira vaga, e hoje conserva centenas de fundos pessoais e familiares distintos — para os descendentes de emigrados, este é um dos endereços mais prováveis onde podem aparecer cartas, memórias ou fotografias de um antepassado concreto, desde que a família tenha mantido alguma ligação com os Estados Unidos.

§ 04

O Instituto Hoover: uma coleção californiana sobre a catástrofe russa

O arquivo do Instituto Hoover sobre a Guerra, a Revolução e a Paz, na Universidade de Stanford, foi originalmente criado para documentar a Primeira Guerra Mundial, mas expandiu-se rapidamente para a revolução russa e a emigração subsequente — o fundador do instituto, o futuro presidente dos EUA Herbert Hoover, organizou pessoalmente a ajuda humanitária à Rússia esfomeada no início da década de 1920, e através desses canais obteve acesso a um enorme volume de documentos. A coleção Hoover inclui arquivos dos governos brancos, fundos pessoais de figuras militares e políticas da emigração, e uma das maiores coleções do mundo de imprensa periódica da emigração — jornais e revistas publicados pela diáspora russa em todo o mundo, que frequentemente publicavam necrologias, anúncios de busca de familiares e listas de diplomados de instituições de ensino da emigração.

§ 05

A Casa da Emigração Russa: a memória que regressou a Moscovo

A Casa da Emigração Russa Alexandre Soljenítsin, em Moscovo, é uma instituição relativamente jovem, inaugurada em 1995, mas desempenha uma função única: reúne arquivos e coleções pessoais de emigrados e seus descendentes que, após o colapso da URSS, começaram a entregar documentos familiares à terra natal dos seus antepassados. Para um investigador, isto significa que o material sobre uma mesma família de emigrados pode estar fisicamente dividido entre arquivos ocidentais, onde os documentos ficaram no momento da emigração, e o arquivo moscovita, ao qual herdeiros já pós-soviéticos os entregaram mais tarde — para uma visão completa, vale a pena verificar ambas as direções.

§ 06

A prefeitura de polícia e o dossiê de estrangeiro: uma fonte inesperada na França

Para os emigrados que se fixaram na França, uma das fontes mais subestimadas não é um arquivo da comunidade russa, mas a burocracia estatal francesa. Todo o estrangeiro residente na França durante o período entre guerras era obrigado a registar-se na prefeitura de polícia do seu departamento, e era aberto um processo pessoal — o dossiê d'étranger —, que podia incluir uma fotografia, impressões digitais, endereços de residência ao longo dos anos e dados sobre mudanças de estatuto. Estes dossiês conservam-se hoje nos arquivos departamentais (Archives départementales) do local de residência do emigrado, e não de forma centralizada em Paris, pelo que, para a busca, é preciso saber exatamente em que departamento a pessoa vivia. Se o emigrado obteve mais tarde a nacionalidade francesa, o processo de naturalização (dossiê de naturalisation) conserva-se separadamente, no Arquivo Nacional da França, em Pithiviers, e geralmente contém uma ficha biográfica muito mais detalhada do que o dossiê de estrangeiro — por vezes incluindo depoimentos de testemunhas sobre a boa conduta do requerente.

§ 07

A Igreja no estrangeiro: registos que não eram mantidos por Moscovo

Após a revolução, parte do clero ortodoxo russo no estrangeiro recusou-se a reconhecer a liderança do Patriarcado de Moscovo, que tinha ficado sob o controlo do Estado soviético, e formou uma jurisdição própria — a Igreja Ortodoxa Russa Fora da Rússia (ROCOR), que só se reunificou formalmente com o Patriarcado de Moscovo em 2007. Durante quase todo o século XX, as paróquias da ROCOR na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália e na América do Sul mantiveram os seus próprios registos de nascimentos, casamentos e óbitos de emigrados — completamente separados do sistema soviético de registo civil e dos registos que pudessem existir na terra natal dos antepassados antes da revolução. Para os descendentes de emigrados, esta é frequentemente a única fonte que regista a data e o local exatos de um acontecimento já ocorrido no exílio, e é preciso procurar estes registos diretamente nos arquivos da paróquia concreta da ROCOR ou da administração diocesana que servia essa região.

§ 08

Harbin: uma emigração que teve de fugir duas vezes

A história do ramo harbinense da emigração russa é mais complexa do que a europeia, porque os russos de Harbin tiveram de fugir não uma, mas duas vezes. Depois de 1920, Harbin e a faixa ferroviária do Caminho de Ferro do Oriente Chinês tornaram-se o lar de dezenas de milhares de russos — funcionários da própria linha férrea, militares, clero — que construíram em território chinês uma verdadeira cidade russa, com liceus, igrejas e jornais. Mas em 1945 as tropas soviéticas ocuparam a Manchúria, e por volta de 1949 os comunistas venceram na China, obrigando os russos de Harbin a evacuar novamente — desta vez para a Austrália, o Brasil, os Estados Unidos e outros países que acolhiam refugiados através de campos de trânsito nas Filipinas. Para os descendentes dos harbinenses, isto significa que o rasto arquivístico de um antepassado se divide frequentemente em três camadas: o período chinês (registos das igrejas de Harbin, documentos do Caminho de Ferro do Oriente Chinês), o período transitório nos campos e, finalmente, o país de fixação definitiva depois de 1949 — e em cada uma delas podem conservar-se documentos diferentes sobre a mesma pessoa.

§ 09

Sainte-Geneviève-des-Bois: um cemitério como fonte genealógica

O cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois, perto de Paris, fundado em 1927, tornou-se o local de repouso de várias gerações de emigrados da primeira vaga e das seguintes — desde participantes do movimento branco e figuras da cultura até aos seus filhos e netos — e é hoje uma das maiores coleções de campas russas fora da Rússia. Uma inscrição funerária contém muitas vezes mais informação do que parece à primeira vista: além do nome e das datas de vida, muitos monumentos indicam a patente militar, o nome de um regimento ou instituição de ensino, o nome de solteira da esposa, e por vezes até o nome da cidade ou governo de origem na Rússia. A lista completa de sepultamentos e fotografias das campas foram reunidas em várias bases de dados abertas, mantidas por associações de descendentes de emigrados, e para uma família que perdeu o rasto de um antepassado concreto na França, o arquivo do cemitério revela-se por vezes mais rápido do que os organismos oficiais franceses. Uma função semelhante para emigrados em todo o mundo é desempenhada pelo projeto em vários volumes «Túmulos não esquecidos» (Nezabytye Mogily), que a Casa da Emigração Russa de Moscovo mantém desde a década de 1990: uma compilação sistemática de necrologias e dados de óbito de figuras destacadas da emigração, reunida a partir da imprensa periódica do exílio de diferentes países e décadas. Embora o projeto se centre principalmente em figuras destacadas e não em emigrados comuns, vale a pena, para as famílias cujo antepassado ocupou alguma posição social, militar ou cultural na diáspora, verificar esta compilação separadamente dos pedidos de arquivo.

§ 10

Tabela-resumo: a quem recorrer

Fonte

O que conserva

Onde encontrar

Arquivo Bakhmeteff

Fundos pessoais, diários, correspondência, fotografias

Universidade de Columbia, Nova Iorque

Arquivo do Instituto Hoover

Arquivos dos governos brancos, imprensa periódica da emigração

Universidade de Stanford, Califórnia

Casa da Emigração Russa

Coleções entregues por emigrados e seus descendentes desde 1991

Moscovo

Dossiê d'étranger / dossiê de naturalisation

Processo pessoal de um estrangeiro ou cidadão naturalizado

Arquivo departamental francês do local de residência; naturalizações em Pithiviers

Paróquias da ROCOR

Registos de nascimentos, casamentos e óbitos de emigrados

Arquivo da paróquia concreta ou da administração diocesana

Cemitério de Sainte-Geneviève-des-Bois / «Túmulos não esquecidos»

Inscrições funerárias, necrologias de emigrados destacados

Bases de dados abertas de associações de descendentes; compilação da Casa da Emigração Russa

§ 11

Cinco erros na investigação de antepassados emigrados

§ 12

Lista de verificação da busca

  1. Determine em que centro de emigração (Constantinopla, Berlim, Praga, Belgrado, Harbin, Paris) o antepassado se estabeleceu, e em que ano.
  2. Verifique os arquivos Bakhmeteff e do Instituto Hoover quanto à existência de um fundo pessoal com esse sobrenome.
  3. Se o antepassado viveu na França, solicite o dossiê d'étranger no arquivo departamental correspondente e, se aplicável, o dossiê de naturalisation em Pithiviers.
  4. Verifique se o nascimento, casamento ou óbito do antepassado foi registado numa paróquia da ROCOR da região onde ele vivia.
  5. Procure o sobrenome em catálogos da imprensa periódica da emigração — uma menção numa necrologia ou anúncio fornece muitas vezes uma data exata e nomes adicionais de parentes.

O rasto arquivístico da emigração branca está disperso pelo mundo exatamente como os próprios emigrados estiveram: parte dos documentos acabou em coleções universitárias americanas, parte nos arquivos de departamentos e cidades europeias, parte nos fundos de uma jurisdição eclesiástica que existiu totalmente fora do sistema soviético, e parte regressou nas últimas décadas a Moscovo junto com os descendentes. Um conhecimento sistemático desta geografia transforma a busca, de um vaguear ao acaso, num percurso coerente por alguns arquivos concretos.

§ 13

Glossário

Passaporte Nansen — um documento de identidade para refugiados sem nacionalidade, introduzido por iniciativa de Fridtjof Nansen em 1922.

Arquivo Bakhmeteff — uma coleção de documentos pessoais da emigração russa na Universidade de Columbia, com o nome do diplomata Boris Bakhmeteff.

Arquivo do Instituto Hoover — uma coleção de documentos sobre a revolução russa e a emigração na Universidade de Stanford.

A Casa da Emigração Russa Alexandre Soljenítsin — uma instituição moscovita que reúne arquivos de emigrados e seus descendentes desde 1995.

Dossiê d'étranger — um processo pessoal aberto pela prefeitura de polícia francesa para cada residente estrangeiro do país.

ROCOR (Igreja Ortodoxa Russa Fora da Rússia) — uma jurisdição da ortodoxia russa fora da URSS, que existiu separadamente do Patriarcado de Moscovo até 2007.

Sainte-Geneviève-des-Bois — um cemitério russo perto de Paris, fundado em 1927, local de repouso de várias gerações de emigrados.

«Túmulos não esquecidos» (Nezabytye Mogily) — uma compilação necrológica em vários volumes sobre figuras destacadas da emigração russa, mantida pela Casa da Emigração Russa.