Num ciclo natural, várias dezenas de folículos começam a crescer simultaneamente todos os meses. O corpo seleciona apenas um — o folículo dominante — e os restantes atrofiam. Não é desperdício: um óvulo maduro por mês é perfeitamente suficiente quando tudo funciona normalmente.
A FIV opera com outra lógica. O caminho desde a punção até à transferência embrionária envolve várias etapas, e em cada uma se 'perdem' óvulos: nem todos são maduros, nem todos se fertilizam, nem todos os embriões sobrevivem até blastocisto. Quanto mais óvulos no início, melhores as probabilidades de que pelo menos um bom embrião chegue à transferência.
A estimulação 'salva' os folículos que no ciclo natural teriam desaparecido. Não cria óvulos novos nem os 'pede emprestados ao futuro' — utiliza o que já estava nos ovários mas estava destinado a atrofiar. É essencial perceber isto para quem se preocupa com 'gastar a reserva'.
A base da estimulação são as gonadotrofinas — preparações hormonais contendo FSH (hormona folículo-estimulante), a mesma que a hipófise produz no ciclo natural para impulsionar o crescimento folicular. Na estimulação é administrada externamente e em quantidades muito superiores às que o corpo produziria, para 'convencer' os ovários a desenvolver vários folículos em vez de um.
Em paralelo é geralmente adicionado um agonista ou antagonista de GnRH. A sua função: prevenir um pico prematuro de LH que no ciclo natural desencadearia a ovulação. Sem este controlo, os óvulos poderiam libertar-se antes da punção. As doses e medicamentos específicos são adaptados individualmente: idade, reserva ovárica (AMH), ciclos anteriores e resposta ovárica prevista.
Aproximadamente de dois em dois a três dias durante a estimulação, é realizada uma ecografia de monitorização. O médico conta os folículos e mede o seu diâmetro. O objetivo é seguir a resposta dos ovários e ajustar a dose se necessário. O momento ideal para a punção é quando folículos suficientes atingem 18-20 mm de diâmetro — a esse tamanho o óvulo tem maior probabilidade de estar maduro.
É também colhido sangue para doseamento de estradiol, cujo nível reflete a atividade dos folículos em crescimento e ajuda a avaliar o risco de hiperestimulação.
Quando os folículos estão prontos, é administrada a injeção 'gatilho' — inicia a maturação final do óvulo. Sem ela o óvulo não completa a meiose e tecnicamente não está pronto para fertilização.
O gatilho clássico é a hCG, que imita o pico natural de LH. A alternativa é um agonista de GnRH, usado quando o risco de SHO é elevado. O que não é negociável: a punção tem de acontecer exatamente 36 horas após o gatilho. Não aproximadamente — exatamente. Porque cerca de 38 a 40 horas após o gatilho começa a ovulação espontânea.
A estimulação é uma intervenção hormonal significativa, e a reação varia. O inchaço e o desconforto abdominal são quase universais. Os ovários crescem consideravelmente e isso é percetível. Mudanças de humor, irritabilidade, choro fácil — são consequência dos níveis elevados de estrogénios. Não são 'os nervos'. É fisiologia.
O que não é normal e requer contacto imediato com a clínica: dor abdominal intensa e súbita, aumento marcado do volume abdominal, dificuldade respiratória súbita, redução notável da diurese. Podem ser sinais de SHO grave.
A estimulação é um processo tecnicamente exigente mas bem estabelecido. Clínicas em todo o mundo realizam-no diariamente. O desconforto não é sinal de que algo está a correr mal — é uma resposta previsível a um protocolo fisiologicamente intensivo. O melhor a fazer: seguir as instruções à risca (especialmente o momento do gatilho), não faltar às consultas de monitorização e comunicar ao médico qualquer sintoma invulgar ou intenso.
AMH (hormona anti-mülleriana) — marcador da reserva ovárica. AMH elevada prevê boa resposta mas também aumenta o risco de SHO.
Blastocisto — embrião nos dias 5-6 de desenvolvimento. Estadio ideal para transferência ou congelação.
Freeze-all — estratégia de congelar todos os embriões sem transferência a fresco. Usada com risco elevado de SHO.
Gonadotrofinas — preparações hormonais de FSH e/ou LH injetadas subcutaneamente para estimular o crescimento folicular.
SHO (síndrome de hiperestimulação ovárica) — resposta ovárica excessiva ao tratamento hormonal de estimulação.
Gatilho (trigger) — injeção de hCG ou agonista de GnRH que inicia a maturação final dos óvulos. A punção realiza-se exatamente 36 horas depois.
Milhares já constroem famílias nos seus próprios termos.
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