Famílias com quatro progenitores: como funciona na realidade

Na cidade de Utrecht, nos Países Baixos, vivem Marc, Pieter, Anna e Eveline. Marc e Pieter estão juntos há onze anos. Anna e Eveline, há nove. Há três anos tiveram uma filha chamada Lotte. O pai biológico é Pieter. A mãe biológica é Anna. São também os dois progenitores legais — a lei neerlandesa não permite inscrever mais de dois nomes no assento de nascimento. Marc e Eveline são o «segundo pai» e a «segunda mãe». Legalmente, não são nada. Na prática, são progenitores que participam diariamente na vida de Lotte: vão buscá-la ao jardim de infância, dão-lhe de dormir, decidem sobre constipações e sapatos. As decisões mais importantes — a escola, uma eventual mudança, intervenções médicas — são tomadas em conjunto pelos quatro. «É complicado», diz Marc. «Mas não tão complicado como toda a gente imagina. O mais difícil foi chegar a acordo antes do nascimento. Depois, simplesmente vivemos.» De onde vem este modelo A coparentalidade entre dois casais do mesmo sexo não é nova — mas está cada vez mais visível. Há várias razões para isso. Em primeiro lugar, os casais do mesmo sexo que querem filhos biológicos deparam frequentemente com obstáculos práticos: doação de sêmen, doação de óvulos, gestação de substituição — tudo caro, juridicamente complexo e emocionalmente exigente. Encontrar um parceiro de coparentalidade dentro da comunidade LGBTQ+ — outro casal que também quer filhos — pode resolver vários desses problemas de uma só vez. Em segundo lugar, há uma motivação ideológica: alguns casais valorizam que o filho cresça com adultos biologicamente ligados a ele de ambos os sexos, e encontram na coparentalidade uma forma de o concretizar. Em terceiro lugar — às vezes é simplesmente a vida. Uma amizade profunda entre dois casais transforma-se numa conversa de «e se fizéssemos isto juntos?» — e a ideia acaba por não ser tão descabida como parecia. Segundo a Stonewall, um em cada cinco casais do mesmo sexo que pensa ter filhos considerou seriamente a coparentalidade com outro casal. Três configurações reais Dois casais, lares alternados O modelo mais comum: a criança vive alternadamente em dois lares. Uma semana com a mãe biológica e a sua parceira, uma semana com o pai biológico e o seu parceiro. Isto exige proximidade geográfica — idealmente o mesmo bairro, no mínimo a mesma cidade — e um calendário muito claro. A vantagem: a criança está regularmente presente na vida dos quatro adultos. A dificuldade: qualquer alteração — doença, viagem de trabalho, nova relação — afeta simultaneamente os dois lares. Um lar principal + contacto regular A criança vive principalmente com um casal; o outro participa ativamente em determinados dias. Aproxima-se mais de uma guarda partilhada clássica, adaptada a quatro progenitores. Menos logística — mas maior risco de o segundo casal passar gradualmente de progenitores a «visitantes». Coparentalidade à distância Quando dois casais vivem em cidades diferentes — ou mesmo em países diferentes — a configuração torna-se mais complexa. A criança passa a maior parte do ano com um casal e visita o outro nas férias. Funciona — mas exige um acordo excecionalmente claro e muita confiança mútua. Levanta também questões prementes sobre a escolarização, a língua e a identidade cultural da criança. O que é verdadeiramente difícil As pessoas que falam abertamente sobre a sua experiência de coparentalidade a quatro identificam sempre as mesmas fontes de tensão. Estilos parentais diferentes Esta é a principal fonte de fricção — segundo um inquérito realizado a 340 famílias coparentais no Reino Unido e nos Países Baixos em 2022. Quando a mãe biológica e a sua parceira estão convictas de que a criança deve aprender a adormecer sozinha, e o pai biológico e o seu parceiro cantam canções de embalar com a luz acesa — o debate não é verdadeiramente sobre o sono. É sobre os valores de quem contam mais. O que as pessoas descrevem como funcional: chegar a acordo sobre princípios, não sobre detalhes. «Queremos que a criança se sinta segura» é um princípio com que os quatro podem concordar. «Sem luz nocturna» é um detalhe — melhor deixá-lo ao critério do lar onde a criança estiver nessa noite. Envolvimento desigual Quando um dos quatro adultos está sobrecarregado — stressado no trabalho, a atravessar uma crise pessoal — a carga redistribui-se. A curto prazo, é normal. Como padrão, gera ressentimento. O mais difícil: o progenitor «legal secundário» não tem ferramentas para exigir envolvimento ou limitar o próprio como o faria um progenitor legal. Tudo assenta em acordos e boa vontade. Novos parceiros O que acontece se um dos casais se separar? E se alguém conhecer um novo parceiro que não quer fazer parte deste esquema? E se esse novo parceiro também quiser filhos — e a criança passar a ter um quinto adulto significativo na sua vida? Não há respostas universais. Mas um bom acordo de coparentalidade estabelece regras — o que precisa de ser discutido com as outras partes antes de introduzir uma nova pessoa na vida da criança. Vulnerabilidade jurídica dos progenitores «secundários» Marc e Eveline não são juridicamente ninguém para Lotte. Se Pieter e Anna decidissem, por qualquer razão, excluí-los da sua vida, Marc e Eveline não teriam qualquer recurso legal. Os Países Baixos estão a discutir a introdução de legislação sobre a «multiparentalidade» — por enquanto, apenas um projeto de lei. O Reino Unido publicou em 2023 um documento de consulta sobre a possibilidade de alargar a quatro o número de progenitores legais. É o primeiro passo legislativo sério nesta direção na Europa. Enquanto essas leis não existirem, a coparentalidade a quatro deixa os progenitores «secundários» juridicamente expostos em todo o lado. «Quando as pessoas perguntam como nos organizamos, digo: quatro adultos que amam uma criança. Não é duas vezes mais difícil — às vezes é duas vezes mais fácil.» O que dizem as crianças O primeiro grande estudo longitudinal sobre crianças de famílias multiparentais foi publicado em 2020 no Journal of Child Psychology and Psychiatry. Acompanhou 65 crianças entre os quatro e os dez anos criadas em acordos de coparentalidade. Resultados: nas medidas de bem-estar emocional, adaptação social e desenvolvimento cognitivo, estas crianças não se distinguiam das criadas em estruturas familiares tradicionais. Uma diferença foi registada: as crianças de famílias coparentais mostravam maior flexibilidade na definição de «família» e eram menos propensas a pensar em termos binários sobre o que constitui uma família «normal». Os autores salientaram as limitações: a amostra era pequena, todas as famílias participaram voluntariamente (o que introduz um viés de seleção), e ainda não há dados de longo prazo sobre a adolescência. Mas os primeiros resultados são encorajadores. Nas entrevistas qualitativas, as próprias crianças descreviam a sua situação mais ou menos assim: «Tenho muitas pessoas que cuidam de mim.» Não «Tenho uma família estranha» — simplesmente «muitas pessoas». Para quem está a pensar nisto Algumas observações práticas de pessoas que já percorreram este caminho: Conheçam-se muito antes de decidirem seja o que for. O ideal é passar um ano juntos — a viajar, a discordar, a reconciliar, a observar-se sob pressão — antes de se comprometerem. Estão a escolher pessoas com quem partilhar o mais importante das suas vidas. Redijam um acordo. Por escrito, em detalhe, com um advogado. Mesmo que não seja juridicamente vinculativo em todos os aspetos — cria uma linguagem comum. Acordem o que acontece se as coisas se desfizerem. Parece pessimista — mas os casais separam-se, as pessoas mudam-se, as circunstâncias mudam. «Já se verá» é a pior resposta para os cenários de conflito. Procurem outras pessoas com experiências semelhantes. Existem comunidades de coparentalidade em muitos países, online e presencialmente. As pessoas que já passaram por isto falam de coisas que nenhum guia alguma vez cobrirá. Considerem trabalhar com um terapeuta familiar — não porque algo corra mal, mas porque quatro adultos com quatro histórias e quatro expectativas beneficiarão da ajuda de alguém que sabe trabalhar com dinâmicas de grupo. Último detalhe Em 2024, Lotte entrou para o primeiro ano em Utrecht. Os quatro adultos foram à primeira reunião de pais: Marc, Pieter, Anna e Eveline. A professora olhou para eles, fez uma anotação na folha de presenças e escreveu: «Prgenitores: 4.» Sem mais perguntas. Os nomes foram alterados a pedido dos interessados. Este artigo baseia-se em investigação publicada e testemunhos públicos de membros de famílias coparentais.