Registos paroquiais: o que são, onde encontrá-los e como lê-los

§ 01

Antes de o Estado começar a registar nascimentos, casamentos e óbitos, era a Igreja que mantinha esses registos. Em Inglaterra e no País de Gales, as paróquias anglicanas tinham registos de batismos, casamentos e enterros desde 1538. Nos territórios germânicos, as paróquias luteranas e católicas iniciaram um registo sistemático nas décadas de 1520 e 1540. A França tornou obrigatórios os registos paroquiais em 1539. Espanha e Portugal seguiram o Concílio de Trento (1545–1563). A Rússia introduziu livros métricos obrigatórios em 1722. Estes registos — conservados em número notável em toda a Europa — constituem o fundamento da investigação genealógica para a maioria das famílias de origem europeia.

A má notícia: podem ser difíceis de localizar e ainda mais de ler. A boa notícia: milhões de páginas foram digitalizadas, e a competência de leitura de escritas antigas desenvolve-se mais depressa do que se pensa.

§ 02

Inglaterra e País de Gales

Os registos paroquiais foram instituídos por Thomas Cromwell em 1538. O Hardwicke Marriage Act (1753) introduziu um formulário padronizado para os assentos de casamento; o Rose's Act (1812) fez o mesmo para os batismos e os enterros. Um assento de batismo contém geralmente: a data do batismo (não do nascimento — a diferença podia ser de dias ou semanas), o nome da criança, o nome do pai e — após 1812 — o nome da mãe. Um assento de casamento posterior a 1754 inclui: data, nomes completos de ambas as partes, a sua paróquia de residência, se foi por proclamas ou por licença, e os nomes de duas testemunhas. Um assento de enterro regista: data, nome e — em registos mais tardios — idade e causa da morte.

A grande maioria dos registos paroquiais anglicanos encontra-se hoje nos County Record Offices. A maioria está digitalizada e acessível através da Ancestry, FindMyPast ou dos portais dos próprios arquivos. As transcrições episcopais — cópias anuais enviadas aos arquivos diocesanos — existem frequentemente onde o original se perdeu. Para a Escócia, os Old Parish Registers (OPR) desde 1553 são totalmente consultáveis em ScotlandsPeople.gov.uk. Para a Irlanda, o incêndio do Public Record Office em 1922 destruiu a maior parte dos registos anteriores ao século XIX; os registos conservados encontram-se na Representative Church Body Library de Dublin e nos Arquivos Nacionais da Irlanda.

Nem todos os antepassados ingleses eram anglicanos. Metodistas, baptistas, quakers, católicos, presbiterianos, judeus — todos mantinham os seus próprios registos. Em 1837, a maioria dos registos não-conformistas foi entregue ao Estado e encontra-se agora nos Arquivos Nacionais nas séries RG 4 a RG 8, digitalizados e acessíveis na Ancestry e na FindMyPast.

§ 03

Alemanha e Áustria

A Reforma impulsionou o registo precoce nas zonas protestantes; o Concílio de Trento (1545–1563) tornou-o obrigatório para as paróquias católicas. Os Kirchenbücher alemães mais antigos datam do século XVI. Os livros evangélicos estão hoje principalmente em arquivos eclesiásticos territoriais ou arquivos estaduais; os católicos encontram-se frequentemente ainda nas paróquias ou arquivos diocesanos. Archion.de (pago) é a maior plataforma digital para os Kirchenbücher evangélicos; Matricula-online.eu (maioritariamente gratuito) cobre registos católicos da Alemanha, Áustria e outros países; FamilySearch.org (gratuito) contém milhões de páginas digitalizadas.

O principal obstáculo é a letra Kurrent, utilizada até ao século XX. O método mais eficaz: começar com um registo já transcrito, lendo a transcrição em paralelo com a imagem original.

§ 04

França

A ordenança de Villers-Cotterêts (1539) impôs a redacção dos registos em francês em vez de latim. O édito de 1667 introduziu a dupla conservação. A Revolução transferiu o registo para os funcionários municipais em setembro de 1792. Os registos anteriores a 1792 estão nos Archives départementales, cuja grande maioria está digitalizada e acessível gratuitamente em linha — uma das melhores coberturas digitais da Europa. Geneanet.org contém milhões de transcrições de registos franceses.

§ 05

Espanha e Portugal

O Concílio de Trento obrigou as paróquias católicas a manter registos de batismos e casamentos. Espanha implementou-o a partir da década de 1560; Portugal igualmente a partir do século XVI. Em Espanha, os livros paroquiais conservam-se em paróquias, arquivos diocesanos ou arquivos históricos provinciais; FamilySearch.org oferece milhões de páginas gratuitamente. Em Portugal, os Arquivos Distritais disponibilizam os livros paroquiais transferidos gratuitamente em linha; a Torre do Tombo em Lisboa possui importantes fundos complementares.

§ 06

Rússia e o Império Russo

Os livros métricos (метрические книги) tornaram-se obrigatórios no Império Russo por decreto de Pedro I em 1722. Cada livro tinha três secções: nascimentos/batismos, casamentos e óbitos/enterros. Um assento de batismo contém: data de nascimento e de batismo, nome da criança, legitimidade, nome próprio e nome do pai, o seu estado e confissão, o apelido de solteira da mãe, e os nomes e estado dos padrinhos (восприемники). Os livros eram mantidos em dois exemplares: o exemplar consistorial enviado ao consistório diocesano está melhor conservado. Após 1917–1918, os livros métricos foram transferidos das igrejas para os arquivos e encontram-se hoje principalmente nos arquivos estatais regionais da Rússia. FamilySearch.org contém milhões de páginas de livros métricos russos gratuitamente.

§ 07

Ucrânia

A genealogia ucraniana para a maioria ortodoxa segue a mesma lógica que a russa, com importantes complementos. Os livros métricos uniatas (greco-católicos) são indispensáveis para a Galícia, a Volínia e a Podólia — conservados no ЦДІАЛ de Lviv e em arquivos polacos. O Arquivo Histórico Central do Estado de Kyiv (ЦДІАК) possui os fundos antigos mais importantes. FamilySearch.org é particularmente rico para a Podólia, a Volínia e a Galícia.

§ 08

Documentos das comunidades judaicas

A genealogia judaica utiliza um conjunto especial de fontes: o livro do mohel (ספר מוהל) com registos de circuncisões; registos de casamentos; o livro da irmandade de sepultamentos (חברה קדישא); pinkasen comunitários. A partir do século XIX, as autoridades civis obrigaram os rabinos a manter livros métricos em línguas locais. Na Europa de Leste, muito foi destruído durante o Holocausto; o que sobreviveu está indexado no JRI-Poland.org e no FamilySearch.org. O USHMM (ushmm.org) tem bases de dados de muitos países. O Arquivo Central para a História do Povo Judeu em Jerusalém conserva documentos comunitários de toda a diáspora.

§ 09

Método prático

Independentemente do país, o método é o mesmo. Primeiro: identificar a paróquia do antepassado através de um mapa histórico ou de um dicionário geográfico. Segundo: encontrar o arquivo que guarda o registo dessa paróquia. Terceiro: verificar em linha — Ancestry, FamilySearch, FindMyPast, Archion, Matricula, ScotlandsPeople, portais dos arquivos departamentais — antes de qualquer deslocação. Quarto: percorrer página a página: a maioria dos registos não tem índice. Quinto: fotografar ou descarregar cada entrada relevante com a referência arquivística completa.

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