Há alguns anos surgiu uma publicidade difícil de ignorar: 'Descobre quem és realmente.' Um tubo de saliva, algumas semanas de espera — e no ecrã um mapa com percentagens: 39% Europa ocidental, 25% Escandinavo, 13% inesperadamente Ibérico. Cativante. Mas o que significa realmente? E até que ponto é útil um teste de ADN para quem estuda a sério a história da sua família?
A genealogia genética é uma ciência real com capacidades reais. E com limitações reais, das quais a publicidade fala consideravelmente menos do que dos mapas coloridos.
O primeiro é o teste autossómico (atDNA). O mais popular, oferecido por Ancestry, 23andMe e MyHeritage. Analisa o ADN herdado de ambos os progenitores, os quatro avós, etc. Fornece estimativas étnicas e — o mais útil — uma lista de pessoas com segmentos de ADN coincidentes.
O segundo é o teste do cromossoma Y (ADN-Y). Apenas para homens, analisa exclusivamente a linha paterna direta. O terceiro é o teste de ADN mitocondrial (ADNmt), que analisa exclusivamente a linha materna direta.
'39% Europa ocidental' não é um facto documentado sobre os seus antepassados. É uma comparação estatística do seu ADN com amostras de referência de pessoas de diferentes regiões compiladas pela empresa. Quanto maior e mais representativa for a amostra de referência, mais precisa será a estimativa.
O mais importante: as estimativas étnicas descrevem uma população, não uma genealogia. Indicam de onde os seus antepassados poderiam estatisticamente provir, não os países e aldeias concretos. '39% Europa ocidental' não diz se o bisavô era do Alentejo ou do Minho. Para respostas concretas é preciso documentos de arquivo.
O mais praticamente valioso no teste autossómico não são as percentagens étnicas mas a lista de correspondências de ADN. Se alguém que fez um teste coincide consigo em segmentos de ADN suficientemente longos — são parentes. O algoritmo calcula o grau de parentesco aproximado.
É uma ferramenta poderosa — especialmente para problemas que os métodos arquivísticos não conseguem resolver: encontrar pais biológicos para adotados, estabelecer paternidade através de parentes distantes, 'romper' uma linha onde os documentos se perderam.
O teste do cromossoma Y pode fazer o que o teste autossómico não pode: seguir claramente uma linha direta ao longo de muitas gerações. Se um homem que partilha o seu apelido e você fazem ambos um teste ADN-Y e coincidem estreitamente, isso é uma forte evidência de um antepassado masculino comum nessa linha. Os projetos de apelido no FamilyTreeDNA fazem uso ativo disto — agrupam pessoas com o mesmo apelido que coincidem em ADN-Y e trabalham em direção a um antepassado comum.
Os haplogrupos — designações como R1b, I1, J2, E1b1a — são categorias de genética de populações que descrevem a origem do seu cromossoma Y ou ADNmt numa escala temporal de milénios. R1b domina na Europa Ocidental. I1 é comum na Escandinávia. Descrevem migrações do Neolítico ou da Idade do Bronze — não o seu tetravô, mas populações pré-históricas.
Nomes e datas concretos — isso é o arquivo que sabe, não o gene. Localizações geográficas precisas. Nacionalidade, religião ou classe social. O ADN reflete uma origem de população, não uma identidade cultural. Os testes de ADN às vezes revelam o que uma família não sabia — ou tinha cuidadosamente ocultado. Um NPE (evento de não paternidade) ocorre quando o ADN mostra que o pai biológico não era quem se supunha. Isto acontece com mais frequência do que geralmente se reconhece: os estudos estimam a taxa de NPE em cerca de 1 a 3% por geração.
Para a maioria dos fins genealógicos, o teste autossómico é o ponto de partida — de preferência com a Ancestry (maior base de dados) ou a 23andMe. A MyHeritage é popular na Europa e tem uma base forte de utilizadores nas comunidades genealógicas do Leste Europeu. A FamilyTreeDNA é a melhor escolha para testes ADN-Y e ADNmt, com um sistema de projetos de apelido bem desenvolvido. Fazer o teste em mais de uma empresa aumenta a cobertura: cada uma tem a sua própria base de dados, e alguns parentes podem aparecer apenas numa delas.
Para quem pesquisa especificamente ascendência britânica, a Living DNA oferece uma discriminação regional particularmente detalhada no interior da Grã-Bretanha e Irlanda.
Um teste de ADN é uma ferramenta genealógica genuinamente valiosa — especialmente para encontrar familiares vivos e resolver problemas onde não há documentos. As estimativas étnicas são interessantes mas não devem ser tratadas como um mapa preciso de origem. Nomes, datas e locais de nascimento concretos dos antepassados são tarefa da genealogia arquivística, não da genética. Os melhores resultados vêm de combinar ambas as abordagens.
Milhares já constroem famílias nos seus próprios termos.
Ver perfis