Em 1989, o epidemiologista britânico David Strachan publicou uma breve nota no British Medical Journal. Ele havia analisado dados de mais de 17.000 crianças britânicas e descoberto uma correlación curiosa: crianças com mais irmãos mais velhos sofriam menos de febre do feno. Quanto mais irmãos mais velhos, menos alergias. Strachan props uma explicação que ele próprio descreveu como especulativa. Ele não sabia que acabara de formular uma das hipóteses mais influentes da imunologia moderna.
A explicação de Strachan era simples: primªogênitos e filhos únicos têm menos contato com infecções porque não têm irmãos mais velhos trazendo microbios para casa. Esse menor contato microbiano precoce leva o sistema imunitário a reagir de forma excessiva a estímulos inofensivos: pólen, ácaros, pelos de animais.
Nas décadas seguintes, essa hipótese foi refinada por centenas de estudos. Hoje fala-se menos de “hipótese higiêista” e mais de “hipótese dos velhos amigos”: o que o sistema imunitário precisa não são necessariamente germes patógenos, mas micro-organismos com os quais co-evoluímos, como bactérias intestinais, parasitas e microbios ambientais.
O sistema imunitário não precisa de um combate. Precisa de uma conversa. E essa conversa acontece com bilhões de micro-organismos que conhecemos há milênios.
Os números falam por si. Nos países desenvolvidos, onde a higiene atingiu um nível historicamente elevado, a prevalência de doenças alérgicas quadruplicou em cinquenta anos. A febre do feno afeta hoje 30 a 40 % da população das cidades europeias. A asma quadruplicou. As alergias alimentares continuam a aumentar. Nas regiões rurais de África e Ásia, com muito menos higiene mas um contato microbiano muito mais rico, essas doenças são raras.
O intestino humano abriga cerca de 100 trilhões de micro-organismos, mais de dez vezes o número de células humanas no corpo. Essa comunidade, o microbioma, não é um residente passivo. Ela produz vitaminas, digere carboidratos complexos, educa o sistema imunitário e se comunica com o cérebro pelo eixo intestino-cérebro.
Para o sistema imunitário, o microbioma é o currículo principal. Recém-nascidos chegam com um intestino quase estéril. Nos três primeiros anos de vida o microbioma se forma, e é nesse período que as bases da função imunitária são estabelecidas. Essa janela é crítica e em parte irreversível.
Crianças nascidas por via vaginal são colonizadas durante o parto pelos micro-organismos da mãe, principalmente espécies de Lactobacillus. As nascidas por cesárea são expostas primeiro às bactérias cutâneas da equipe cirúrgica e do ambiente. Estudos mostram que essa diferença persiste até um ano. Estudos longitudinais encontram consistentemente taxas mais altas de asma, alergia e diabetes tipo 1 em crianças nascidas por cesárea.
Importante: não é um argumento contra a cesárea. Às vezes ela é vital. É um argumento para considerar formas de compensar esse défice microbiano, como o aleitamento materno e a administração controlada de probióticos.
O leite materno não é estéril. Contém centenas de espécies bacterianas e oligossacarídeos do leite humano (HMO), açúcares complexos que o bebê não consegue digerir sozinho mas que servem de alimento para determinadas espécies de Bifidobacterium. Evolutivamente coerente: a mãe alimenta simultaneamente o filho e o seu microbioma.
As meta-análises mostram que crianças amamentadas apresentam menores taxas de infecções respiratórias, otite média, enterocolite necrosante em prematuros e alergias posteriores. O efeito é dose-dependente: quanto mais prolongado o aleitamento, mais marcado o efeito.
Os antibióticos salvam vidas. Mas são armas inespecíficas: não destroem apenas os germes-alvo, mas dizimam todo o microbioma intestinal. Após um ciclo de antibióticos, a recuperação da diversidade inicial pode levar meses ou nunca se completar.
Em crianças, o efeito é especialmente crítico. Estudos mostram que três ou mais ciclos de antibióticos nos dois primeiros anos de vida aumentam o risco de asma em 40 a 60 %. Não é um argumento contra antibióticos perante uma infecção real. É um argumento contra a prescrição profilatic e a automedicação.
Um esclarecimento importante: a hipótese higiêista não recomenda parar de lavar as mãos nem recusar vacinas. Lavar as mãos previne a transmissão de germes patógenos contra os quais não desenvolvemos tolerância evolutiva. As vacinas protegem contra doenças que matam.
O que é excessivo: casas esterilizadas, sabões antibacterianos no dia a dia, antibióticos profilatic e o medo de qualquer sujeira nas crianças. O sistema imunitário não precisa de uma carga patógena. Precisa de diversidade microbiana: a que se encontra na terra, nos animais, nas plantas e nos ambientes naturais.
O sistema imunitário aprende pelo contacto. Precisa de diversidade microbiana para construir redes reguladoras que o impedem de tratar substâncias inofensivas como inimigos. A explosão de doenças alérgicas e autoimunes nos países desenvolvidos é em parte o preço de um ambiente limpo demais. Compreender isso muda a forma como abordamos a gravidez, o parto e a primeira infância.
O sistema imunitário não é um soldado a proteger. É um aluno a formar. E o melhor professor é o mundo microbiano.
O Módulo 3 (Biohacking e Pré-concepção) inclui uma secção sobre probióticos pré-concecionais e otimização do microbioma. O Módulo 6 (Navegador Hormonal) aborda o microbioma durante a gravidez.
a teoria segundo a qual a redução do contacto com micro-organismos na primeira infância aumenta o risco de doenças alérgicas e autoimunes.
o conjunto de micro-organismos (bactérias, vírus, fungos) que vivem em e sobre o corpo humano, especialmente no intestino.
vermes parasitas que co-evoluíram com os humanos durante milênios e desempenharam um papel regulador no sistema imunitário.
açúcares complexos no leite materno que funcionam como prebióticos para determinadas bactérias intestinais específicas do lactente.
a transferência de secreções vaginais para recém-nascidos por cesárea, para replicar parcialmente a colonização microbiana inicial.