A maioria das pessoas acredita que o sexo biológico é determinado pelos cromossomas: XX para raparigas, XY para rapazes. Não está errado, mas está incompleto. O cromossoma é o mapa. O que realmente determina o caminho é um único gene que se ativa na sexta semana de gravidez. Sem esse gene, qualquer embrião, independentemente do cariótipo, desenvolve-se por uma via feminina.
Durante as primeiras cinco a seis semanas após a fecundação, todo o embrião é morfologicamente neutro. Possui dois esbozos gonadais, bem como dois sistemas de canais emparelhados: os canais de Müller e os de Wolff. Ambos estão presentes, independentemente do cariótipo.
O que acontece a seguir depende de um único interruptor: o gene SRY no cromossoma Y. Se SRY está ativo, uma cascata de eventos transforma os esbozos gonadais em testículos. Se SRY está inativo —porque não há cromossoma Y ou porque SRY está silenciado por outras razões—, os esbozos diferenciam-se em tecido ovárico.
O programa de desenvolvimento feminino é o programa por defeito. A via masculina requer um sinal ativo. Sem esse sinal, o embrião torna-se rapariga.
| Estrutura (semana 6) | Nas raparigas | Nos rapazes |
|---|---|---|
| Tubérculo genital | Clítoris | Glande |
| Sulco urogenital | Vagina e uretra | Uretra |
| Pregas labioescrotais | Lábios menores | Escroto (após fusão) |
Esta tabela mostra como as estruturas comuns do embrião neutro se diferenciam consoante a via de desenvolvimento:
Clítoris
Glande do pénis
Vagina e uretra
Uretra
Lábios menores
Escroto
Útero, trompas, vagina superior
Regride (AMH)
Regride
Epidídimo, canal deferente
SRY – Sex-determining Region Y – é um fator de transcrição: uma proteína que ativa e desativa outros genes. Ativa SOX9, que por sua vez controla outros genes que transformam os esbozos gonadais em testículos.
Os testículos começam então a produzir duas hormonas: testosterona —que desenvolve os canais de Wolff no trato reprodutor masculino— e o fator inibidor mullériano (AMH), que provoca a regressão dos canais de Müller.
Sem estas hormonas —quando os esbozos gonadais se tornam ovários—, os canais de Müller persistem e desenvolvem-se em útero, trompas e parte superior da vagina. Os canais de Wolff regridem.
Chamar “por defeito” ao programa feminino não é um juízo de valor, mas uma descrição da lógica molecular. Na evolução, é vantajoso que o programa mais complexo (o masculino, que requer intervenção ativa) seja construído sobre um padrão estável.
Há uma segunda dimensão: todos os embriões, independentemente do sexo posterior, estão primeiro imersos nos estrogénios maternos. O ambiente estrogénico do útero é o ambiente de partida. A androgenização posterior é uma sobrescrita desse padrão.
Todos começamos a partir do mesmo plano base. O que nos diferencia não é a presença ou ausência de algo “feminino”, mas a presença ou ausência de um sinal masculino ativo.
A biologia do desenvolvimento sexual explica também por que ocorrem as variações do desenvolvimento sexual (VDS):
Estas variações mostram que o sexo não é um interruptor binário, mas um processo biológico de múltiplas etapas em que cada etapa depende da anterior.
Cada ser humano começa a sua vida no mesmo caminho de desenvolvimento. O sexo biológico não é um destino fixado no momento da fecundação, mas o resultado de uma elegante coreografia molecular de múltiplas etapas. Compreendê-la não é apenas fascinante: ajuda também a explicar com precisão científica a diversidade dos corpos humanos.
O Módulo 5 (TRA e FIV) explica como o diagnóstico genético pré-implantatório deteta anomalias cromosómicas antes da transferência. Genéticos e especialistas em reprodução verificados estão disponíveis na secção Partners.
SRY (Sex-determining Region Y) — gene do cromossoma Y que inicia o desenvolvimento masculino do embrião. Ativa-se na semana 6–7. Mutações ou ausência de SRY com cariótipo XY conduzem ao desenvolvimento feminino.
SOX9 — fator de transcrição ativado por SRY que controla a diferenciação dos testículos. Um dos genes mais importantes na determinação do sexo masculino.
Fator inibidor mullériano (AMH) — hormona produzida pelos testículos fetais que provoca a regressão dos canais de Müller. Nas raparigas, o AMH permanece baixo e os canais desenvolvem-se em útero e trompas.
VDS (Variações do Desenvolvimento Sexual) — termo geral para condições congénitas em que o sexo cromosómico, gonadal ou anatómico se afasta do desenvolvimento típico.
Milhares já constroem famílias nos seus próprios termos.
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